Rum e Charuto, a lo cubano

Por Alexandre Avellar – 02/05/2013
Cuba é um país de cultura riquíssima. Rum e charuto não só representam com classe esta cultura, como também formam uma das melhores harmonizações no mundo do tabaco. O rum é a bebida nacional de Cuba e serve de base para os principais coquetéis preparados na ilha, como o Mojito, o Daiquiri e, é claro, a Cuba Libre.

Mas engana-se quem pensa que o rum é uma bebida somente para a preparação destes drinks. Nas versões mais envelhecidas, este destilado preparado a partir do melaç o da cana de açúcar oferece uma gama de sabores adocicados que não só complementa o sabor do charuto, como também abre o paladar para a percepção de novas notas das preciosas folhas de tabaco.

O rum aqui no Brasil não é muito popular e dificilmente se encontra um bom rum na maioria dos bares e restaurantes de nosso país. Ao contrário disso, é venerado na América Central e Caribe e é nesta região onde os melhores runs são encontrados.
Para obter o máximo de sabores nesta harmonização, recomendo os cubanos Habana Club Selección de Maestros (foto) e o Santiago de Cuba (muito pouco conhecido no Brasil) 11 años. Obviamente, as versões mais envelhecidas destas marcas são ainda melhores.

O guatemalteco Zacapa, mais facilmente encontrado por aqui, também representa muito bem essa bebida. Recomendo a versão Solera 23 anos e o XO.

Alexandre Avellar é fundador do site Conexão Tabaco, hoje a principal referência sobre charutos no Brasil, e foi Nominado Hombre Habano en Comunicación no XV Festival del Habano, em Cuba. Ministra cursos sobre degustação de charutos e escreve para várias publicações no Brasil e no exterior.

Entrevista com Hermeto Pascoal

Um dos mais inventivos artistas de sua época, o alagoano Hermeto Pascoal apresentou-se com a Orquestra Jovem Tom Jobim no dia 29 de agosto no Memorial da América Latina. Antes de tocar com a orquestra músicas de sua autoria como Coalhada, Jegue e Bebê, Hermeto concedeu essa entrevista à equipe de comunicação da Tom Jobim – EMESP, na qual conta histórias de seus 73 anos de vida, fala sobre sua carreira e de sua paixão pela música.

– São quantos anos de carreira?

São 73. Eu considero que a minha carreira começou no dia 22 de junho de 1936. Na mesma hora em que eu nasci, já comecei a minha carreira.

– Mesmo com tantos anos de estrada sua vitalidade musical parece intacta. Existe alguma fórmula mágica para toda essa vontade de viver e fazer música?

A fórmula é você fazer o que gosta. Eu amo o que faço, e para isso sempre existe motivação. É a música que me carrega e que vai me levar de volta para o céu, se Deus quiser. Tenho cumprido muito bem a minha missão aqui na Terra, que é a música. Então, tenho que ir para o céu mesmo!

– Você utiliza instrumentos não usuais para fazer música, como brinquedos infantis, garrafas e até mesmo a água. Para você, tudo é música?

Tudo. Até os 14 anos o meu público e os meus professores foram os animais: os pássaros, os cavalos, as vacas, os sapos. Eu tocava com eles e para eles e tinha uma receptividade maravilhosa. Isso é algo que existe na minha música, essa essência eu não perdi, ela continua comigo em cada coisa que eu faço. Na música sinfônica, no grupo, em qualquer formação.

– Para você, qual é a diferença entre música erudita e popular?

A diferença é muito grande, porque a proposta do erudito é muito padronizada. Gosto desse estilo musical, da teoria, mas nada tem mudado. Os mesmos compositores são tocados de geração para geração, sem haver inovação nas músicas. Se o Villa-Lobos pudesse falar agora, ele diria: “Gente, toquem o Trenzinho Caipira com outro arranjo. Já que eu não estou aí e não posso fazer, façam vocês”. É como aquela pessoa que usa a mesma roupa a vida toda; como aquele edifício lindo, maravilhoso e bem construído, porém sem restauração. É preciso de restauração na música, mas existem os preconceitos, aquelas pessoas antigas que não querem mexer.

Os próprios compositores não podem falar nada porque não estão mais conosco, mas mesmo mentalmente eles mandam o recado. Eles estão dizendo para todo mundo, eu escuto muito todos eles dizerem. Lembro-me o que o Tom Jobim me disse dentro do elevador em Nova York em 1971, inclusive estou falando abertamente pela primeira vez. Ele morava em Nova York e estava chateado porque a Bossa Nova tinha se tornado música de elevador. Ele estava sentindo a Bossa Nova velha e me disse: “Hermeto, eu gostaria de fazer uma coisa assim, parecida com o Quarteto Novo”. Para você ver como é, o Tom antes de Deus levá-lo já estava assim, imagine como se sentiriam Villa-Lobos, Bethoven, Mozart. Já pensou? O Mozart estaria entortando tudo por aí, fazendo um monte de acordes maravilhosos, aliás, todos eles estariam fazendo isso. Eles dão inclusive a intuição para as pessoas, mas quando esbarram nos conservadores aí… “Não vai mexer na obra, não pode mexer na obra”. Isso tem que acabar. Eu venho tentando há muitos anos, componho peças sinfônicas. As vezes eu faço um trabalho com a sinfônica, toco no Municipal, mas se o Hermeto não está mais lá, ninguém usa mais a música, fica o papel amarelando. Eu gostaria que na minha ausência eles tocassem, e aqui, com a Orquestra Jovem Tom Jobim, senti que vão continuar tocando a minha música. Porque eu acho que não é só quando a gente morre que devem fazer homenagens, o que é muito lindo também, mas que façam o que puderem com a gente ainda aqui na Terra, é muito importante e é muito melhor. Que façam depois também, claro, mas vamos fazer juntos as coisas.

– Então, você acha que falta liberdade para os músicos?

Falta liberdade, coragem, criatividade. Isso tem que partir também das escolas, dos professores. Sei que eles não têm culpa porque também não tiveram essa formação, mas os músicos têm que exigir, no bom sentido. O aluno tem que falar com o professor, não pode ter medo. Os estudantes devem se reunir para dizer ao professor: “Vamos mudar esses arranjos, vamos fazer alguma coisa nova”. Se o professor não sabe, que convide alguém para fazer. Sou um dos que estão aí para fazer. Podemos pegar peças de qualquer compositor. Se me der o tema, posso transformar tranquilamente. Como no Songbook do Tom Jobim. Ele já tinha falecido e me lembro de ter feito uma roupagem nova para o Desafinado. Quando terminei, senti o Tom rindo, feliz. Ele era um cara super musical e senti ele rindo espiritualmente, rindo daquilo, aí eu digo “Aí Tom, agora sim isso aqui é desafinado! Um monte de acordes bonitos, mas agora está desafinado mesmo!”

A minha religião é a música. Já pensou a energia que ela tem, principalmente na hora que você está compondo? Esses compositores que estão no outro plano, estão mais vivos do que nunca. Acho que sou um dos porta-vozes deles, pedindo quase como quem pede socorro, que as pessoas peguem essas músicas e façam outros arranjos, modifiquem. Tocar o Galho da Roseira como eu gravei, igualzinho, só porque acham que eu quero assim. Pois eu não quero! Ninguém quer! Todo mundo quer que as pessoas dêem uma vestimenta nova. Essa é a minha maneira de pensar e sentir.

– Você é tão a favor da liberdade que em seu site existe uma carta autorizando qualquer pessoa a fazer uso de suas músicas e partituras…

Exatamente. Todas as músicas que eu gravei. Foi uma luta com as gravadoras, que ficaram chateadas, mas nunca me pagaram. Você acha que eu vou deixar as músicas paradas com a turma a fim de tocar? Então é melhor não ter dinheiro, mas que toquem a música. Não receber e não tocar é pior. Ficou bonito isso aí e no futuro vão ter músicas inéditas de graça também para a turma.

– Você pretende fazer isso sempre?

Sim, já estamos bolando uma maneira para fazer com que cheguem com uma maior facilidade a essas pessoas. Você vê essa orquestra aqui, os músicos são de alto nível. No meu tempo não tinha jovens tocando tão bem assim. Quando aparecia um assim era um bate-boca danado, porque era novidade naquela época.

– Como é ser um cidadão do mundo e ter reconhecimento internacional do seu trabalho?

É importante ter esse reconhecimento de músico também, porque para mim foi uma luta muito grande. Eu vim aprender teoria com 42 para 43 anos de idade. Sou autodidata e fui aprendendo com as minhas deduções, com meus pensamentos, com as minhas intuições. Aprendi assim, tocando com um, tocando com outro, escutando as pessoas conversando nos corredores. Eu com ouvido de mercador ficava ouvindo o cara falar e tocar; eu já escutava e queria saber a tessitura do instrumento. Então, até hoje eu sou um curioso e me considero um músico intuitivo, tenho até hoje muita facilidade para descobrir e para sentir as coisas bem rápido.

– Você acha que os músicos têm que ter um lado bem mais intuitivo do que técnico?

Sim, porque nas escolas eles não ensinam isso, até porque isso não se ensina. Mas eles não dão liberdade, os músicos não têm liberdade. O que tem que acabar é com a padronização do ensino. O professor tem a obrigação de conhecer cada músico e as suas possibilidades. Porque não adianta dar uma palestra para um monte de músicos ou querer ensinar ou passar alguma coisa sem saber quem é que vai alcançar aquilo que eu vou dizer ou não? Os estudantes devem ter sempre liberdade para fazer perguntas ao professor, não só ele ficar falando o tempo todo. Se eu fosse professor, diria que qualquer um poderia fazer perguntas com toda a liberdade. E o que falta é justamente o diálogo, o professor se sentir também um aluno que aprende com os estudantes. Quebrar a barreira, você sabe que é muito difícil, mas nada é impossível. Para o bem da música isso é muito bom. Como falei antes, os professores também não tiveram isso, mas eles deveriam fazer uma reciclagem.

– Quando você começou a tocar com o seu irmão, em Alagoas, você já imaginava que seu trabalho tomaria proporções tão grandes?

Ah não… não imaginava, mas tinha esperança, tinha vontade. Não sabia onde iria chegar, mas as coisas foram acontecendo. Foi com muita perseverança, com muita luta. Aquele prazer que, quanto mais eu passava por um problema, mais aquele problema me dava vontade de fazer coisas novas. Eu achava que era sempre puxando para baixo, que tem um imã que Deus colocou na Terra, ele não colocou por mal, mas é ele que puxa para baixo tudo o que você faz. Até uma caneta, quando você está escrevendo uma coisa linda e acaba a tinta na hora que não tem que acabar, isso tudo é uma coisa que puxa para baixo.

Eu me lembro que tinha que viajar de ônibus mais de uma hora para a boate onde eu tocava, e tinha que ir cantando no ônibus porque não sabia escrever nada e estava decorando aquilo. Eu dizia para o cobrador: “Não se incomode não que eu não sou louco, eu estou cantando porque eu não escrevo música e não posso esquecer”. Eu pagava o dobro da passagem para ele por causa disso. Ele ficou me conhecendo e quando eu entrava no ônibus, ele já dizia: “Lá vem o cantor”. Então, não é a toa que você consegue as coisas, a gente consegue com muito trabalho. Trabalho que eu chamo de devoção, não é nada de obrigação, é devoção.

– Quais são as lembranças que você guarda da sua infância?

Lembranças que eu guardo são aquelas que vêm sem eu esperar. Eu não guardo as lembranças, porque elas existem com tanta força que já fazem parte de mim. Se eu fosse guardar as lembranças, seria como se eu quisesse olhar para as minhas costas, olhar para a minha sombra. Eu sei que ela existe, inclusive me protege até de me queimar. Para que venham naturais as lembranças, eu escrevo. Por exemplo, antes de vir pra cá eu estava escrevendo em um caderno um monte de músicas e, de repente, me lembrei de quando fui para Recife com 14 anos. Às vezes me lembro com a música já pronta que não tem nem nome. A maioria das minhas músicas eu não coloco nome, e ao olhar para a música vejo aquele lugar, e isso geralmente acontece quando estou compondo. Quer dizer, a lembrança é boa quando vem assim, quando você não fica com medo de esquecer dela, porque quem tem medo de esquecer, não sabe, mas já esqueceu. Pra mim ela vem assim com a maior naturalidade.

– Você conhece há muito tempo o regente da Orquestra Jovem Tom Jobim, Roberto Sion?

Eu conheço o Sion desde os 20 anos de idade. Eu fui tocar em Santos e ele estava lá para assistir ao show, muito jovem. Nessa época ele era muito tímido e não foi falar comigo. Conheci o Sion justamente quando ele se mudou para São Paulo e na época eu estava precisando de um saxofonista no grupo. Convidei ele para tocar comigo. A ideia dele era tocar com orquestra, com big band, era o pensamento mais forte dele na época. Disse pra ele ficar um tempo no grupo até aparecer outro. Ele topou e foi ficando. No grupo é assim, as pessoas ficam e saem quando elas querem, é como se fosse uma igreja, um templo aberto que as pessoas vão e saem quando querem. Entram por aqui, saem por ali, ou voltam pelo mesmo lugar e continua sempre uma família. O Sion está fazendo um trabalho muito bonito aqui, está de parabéns com essa turma que está tocando bem, e ele é uma pessoa de muito bom gosto, harmônico, um instrumentista da pesada.

Isso é muito bom para a música, para dar aquele feeling que na música erudita não tem, que é justamente a coisa rítmica, a coisa da harmonia, dos acordes. É uma inovação, e aí é que eu digo, tomara que ele, Nelson Ayres e outros persistam nisso e que façam arranjos, e dêem vestimentas novas para as peças de compositores antigos. Não é mudar a música, porque a música não se muda. A música é justamente a melodia, o tema. O tema é o filho e a mãe da música é a harmonia. Você não pode mexer no tema, mas pode colocar um acorde, outro, fazer a harmonia, pode mudar o andamento, o ritmo; pode introduzir compasso composto, pode fazer o que quiser sem mexer na melodia, tornando a música linda, criativa e nova. Para as pessoas que escutam aquilo sempre do mesmo jeito, coitados, é cansativo.

Eles pensam que o público é burro, mas o público não é burro não. O público evolui junto e está sempre esperando coisas novas. Qualquer coisa nova que se faz, você sente a reação do público, aquela força. O que eu acho que está faltando é isso, é uma crítica que eu faço, mas bem construtiva.

– Qual mensagem você quer deixar para os jovens músicos brasileiros?

O que os jovens precisam é conversar com seus professores, não podem ficar na mesmice sempre, não podem estabelecer padrões. Cada aluno tem que saber que uma alma é semelhante a outra, porém não igual. As coisas têm que ser somadas e eles devem dar carinho ao professor, mas na hora de pegar no pé, com respeito, tem que pegar. Dizer o que sente e sempre ter uma pergunta para o professor, para questionar construtivamente. Porque às vezes eles deixam a música pagar o pato.

Outra coisa importante é lembrar sempre que pra tocar Bossa Nova tem que se tocar diferente. A turma da Bossa Nova hoje poderia ser chamada de Bossa Velha, como eu falei do que o Tom me disse em 1971, quando estava cansando. Você imagina agora. A Bossa Nova é uma música linda, deve continuar assim, mas para esclarecer: não é mais algo novo, é uma música que já está assentada. Como eu falei, são vários edifícios velhos e antigos, porém sem restauração, e a Bossa Nova precisa de restauração. Com muito carinho, porque as melodias são muito lindas, muito bonitas e maravilhosas. O que elas precisam é justamente disso, que peguem o Songbook e escutem lá aquele maluco barbudo, o Hermeto, fez com Desafinado e com outras músicas como Chovendo na Roseira. Claro que não é para fazer igual, mas para usar de inspiração. Mas não, os velhos da Bossa Nova vão falar: “Assim não, isso não é Bossa Nova”. Porque a maioria deles é de tradicionalistas, e nós temos que acabar com isso. Nem lata, nem enlatado dá pé, você imagine querer conservar a música. A música que você tem que vesti-la toda hora, com algo novo e tocar diferente. Às vezes você toca o mesmo acorde, mas se faz uma divisão diferente com o mesmo acorde, irá soar como duas coisas diferentes, duas coisas maravilhosas.

A mensagem que eu mando é que eles continuem. Parabéns pelo nível dessa orquestra e para as outras de jovens que eu sei que tem aqui em São Paulo. Parabéns para todos e que os professores não deixem de convidar outras pessoas, não só o Hermeto, para vir fazer workshop, ou se apresentar com a orquestra. A gente está sempre às ordens para qualquer coisa, porque para mim música não é trabalho, é devoção.

O mundo infinito de Hermeto Pascoal

De Alagoas para mundo, Hermeto Pascoal rodou um bocado, entre Recife e Caruaru, Rio de Janeiro e São Paulo, Estados Unidos e Suíça, Bangu e Curitiba, onde mora atualmente. “Eu considero todos esses lugares a minha terra, né? Onde eu estou, estou bem. Estou feliz com todo mundo. Minha preferência é onde estou. Posso voltar para onde estava, que também estou bem. Tudo são conseqüências da vida.”

O bruxo multiinstrumentista, que toca flauta, piano e sax com a mesma versatilidade com que tira sons de chaleiras, brinquedos, brocas de dentista e da própria barba, já compôs mais de 4 mil músicas. Nascido em 1936, em Olho d’Água, e criado em Lagoa da Canoa, na época município de Arapiraca, no interior alagoano, Hermeto desde moleque já demonstrava o fascínio pela música, a sua linguagem de contato com o mundo. Reza a lenda que ainda criança fazia pífanos com cano de mamona de jerimum (conhecida no Sul e Sudeste como abóbora) e tocava para os passarinhos. Na lagoa, passava horas tocando com a água. Com o material que sobrava do trabalho de ferreiro de seu avô, tirava sons ao pendurá-los no varal.

O improviso é o mote de Hermeto Pascoal, que tocou com alguns dos nossos grandes instrumentistas, como o flautista Copinha, além da turma com quem formou o Quarteto Novo, em meados dos anos 1960, Heraldo do Monte, Théo de Barros e Airto Moreira.

Nos Estados Unidos, levado por Airto Moreira para gravar, em 1969, conheceu e gravou com Miles Davis. Tornou-se conhecido ao redor do planeta depois da histórica apresentação no Festival de Montreux, em 1979. E no ano seguinte gravou um de seus principais trabalhos, Cérebro Magnético, entre as dezenas de registros que têm, seja participando em trabalhos de outros músicos, no começo da carreira, com as várias formações que já o acompanharam, sozinho, como em 1999, quando lançou Eu e eles, e em duo, pela primeira vez, com a nova companheira, Aline Morena, com quem gravou Chimarrão com rapadura em 2006, que resultou em seu primeiro DVD.

O músico, que mora atualmente em Curitiba, esteve no Rio de Janeiro em meados de abril, para uma apresentação no Copacabana Palace, dentro do CopaFest, evento que reuniu em um fim de semana músicos instrumentais como Marcos Valle e Cesar Camargo Mariano. Hermeto (pronuncia-se Herméto, com o acento agudo no segundo “e”, e não “Hermêto”, como costuma ser chamado no Sul-Sudeste, ensinou certa vez Tom Zé, em um festival em que ambos participaram, em Itajaí, no final do século passado) apresentou-se no primeiro dia, e pouco antes de subir ao palco concedeu esta entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo. “Deus fez a cabeça da gente como um mundo infinito. E, através da energia, que não fica na cabeça, mas paira em volta, faz funcionar todas as partes do aparelho, pois nós somos aparelhos”, acredita. Há os que dizem que o papo acima é de um religioso, como já afirmaram ao próprio músico. “Não, eu sou músico. E, através da música, tenho todas estas percepções. Sou um músico muito intuitivo. Respeito demais a minha intuição, que vem em primeiro lugar. Não ponho o saber, mas o sentir na frente de todas as coisas que faço na vida”, afirma.

Para ele, o bom é evitar o máximo de premeditação, bolar as coisas. Escritas, Hermeto tem mais de 4 mil músicas, o que poderia ser contraditório ao seu discurso. “Não rapaz, eu tenho inspiração e escrevo. Eu não bolei aquela música para escrever. Não faço uma coisa antes, um esquema para compor. Posso compor aqui, onde eu estiver posso fazer uma composição. O lindo disso tudo é ver que estou sempre preparado para o não-esperado.” Se preparar, para o bruxo, é tocar bem um instrumento, para, quando tiver uma idéia, conseguir executá-la. “É como a pintura – me meto a pintar também –, vai vindo uma idéia, e outra idéia e outra. E elas vão acontecendo, como na música. Só que tenho que saber mexer com o instrumento, assim como tenho que saber mexer com a pena. O negócio é não se complicar”, resume, parecendo até simples compor com o refinamento com que compõe.

Inegável que Hermeto tenha um ouvido privilegiado. Mas as intervenções do cotidiano, esse ouvir demais pode chegar a ser perturbador, por exemplo? “É o contrário, eu consigo me integrar com isso. Por exemplo, estou no ônibus, aí tenho a idéia de uma música. Se não tenho papel e caneta, vou cantando aquela música, escutando aqueles sons que acontecem, da rua, do carro, e aquilo ali já vai fazendo parte da minha vida. Nada me atrapalha, a não ser música ruim.” Para ilustrar, Hermeto Pascoal fala da empreitada que seria lunática para muitos – mas não para ele –, que resultou no livro Calendário do som (Senac-SP/Itaú Cultural, 2000), quando compôs uma música por dia, durante um ano. “Me lembro que estava escrevendo um dia, e tinha uma reforma lá perto de casa, os caras batendo com o martelo, ainda naquela fase de quebrar as paredes. Se não tivesse essa experiência [de incorporar o cotidiano em suas criações], ia parar de escrever, por conta do barulho lá, dando cacetada. Só que aquele barulho, para mim, foi primordial para fazer a composição, já que eu não bolo nada. Veja bem, se eu tivesse bolado um jeito de compor e tudo, aí ia me atrapalhar. Como eu não bolo…”

Hermeto compara com as entrevistas que dá e as fotos que tira. Ele não gosta de ser dirigido em uma foto, “vira o rosto, senta aqui, olha pra lá”… “Isso é como você fazer música preso”, diz ele. Tem que ficar a vontade e tirar a foto, afirma ele, assim como para fazer a música. “O que parece uma coisa irresponsável, mas não é. É liberdade. Uma liberdade que, nós músicos, conquistamos, para poder passar para o público. A razão da vida da gente é o público.” Segundo ele, dar esta entrevista não é diferente de estar tocando no palco ou viajando no ônibus. Tudo é uma coisa só, tem uma mesma finalidade: a música. E tudo motiva Hermeto a fazê-la. “Tudo”, ele faz questão de reforçar. “Não gosto de generalizar, mas nesse caso acho que não tem…”, e interrompe a frase para novamente exemplificar com outro momento da época das composições diárias.

“Quando minha mãe faleceu, fui para o enterro. O que é uma alegria. Porque a pessoa morreu, é ruim, mas ela vai voltar para a sua casa. A casa da gente é lá, espiritual. Aí fui para o enterro, todo mundo chorou, eu também dei a minha chorada. Não com tristeza, é com saudade. Falo em saudade. E eu estava fazendo esse livro, era uma coisa que eu sentia, espiritual, tinha que fazer uma música todo dia, não tinha papo. E como não gosto de premeditar, esperava aquela hora em que não estava preparado para fazer. Sempre me pegava de susto.” Os familiares então perguntaram como ele iria fazer a música daquele dia. No que ele respondeu: “Mamãe está dizendo para eu ir correndo fazer a música. Mamãe está feliz, nós é que estamos chorando. Ela se desprendeu com 80 anos, esse corpo aí pesado, que não podia ficar mais aí. Ela está feliz da vida, sorrindo”.

Músico totalmente intuitivo, Hermeto conhece profundamente teoria musical, mas só foi aprendê-la, com uns 40 e poucos anos. “Comecei a aprender deduzindo. Sei essas coisas todas, mas eu uso, coloco sempre o sentir”, faz questão de reforçar. Computadores não estão entre os interesses de Hermeto para criar. Ele prefere um pé de uma máquina, uma pedra, brinquedos infantis, chaleiras, a própria barba, porcos. “Eu gosto mais da magia, da criatividade, algo natural. Não quer dizer que não use um teclado para fazer os acordes. Inclusive componho muito sem instrumento, tenho composto 80% sem instrumento. Porque não sei onde vou estar, e não posso carregar sempre os instrumentos comigo”, revela. O primeiro piano veio só depois do 35 anos. O que foi ótimo, segundo ele, pois teve que desenvolver a cabeça. “Se quero uma sinfônica, eu tenho na minha cabeça, se quero um piano, também. O que quero, tenho aqui dentro da cabeça. Por isso não procuro computador, essas coisas. Quem precisa de mim são eles, para registrar o que faço”, fala sem ponta alguma de arrogância.

Como já mencionado, foi a partir da apresentação em Montreux, em 1979, que o mundo dedicou a devida atenção que Hermeto Pascoal merece. O show foi histórico e, na seara de lendas que o cercam, uma delas fala da tentativa de Hermeto embarcar com porcos para se apresentar no afamado festival de jazz. “Alguém me viu no aeroporto, cheio de instrumentos. Quando chego lá, recebo um telefone da Ilza, minha patroa na época, perguntando se eu tinha levado 12 leitõezinhos”, relembra. OGlobo, equivocadamente, havia publicado que Hermeto tinha sido proibido de entrar na Inglaterra com a dúzia de leitõezinhos. Ele respondeu a então mulher: “Olha, diga para eles que aqui tem porquinho bonitinho da minha cor, branquinho como eu. Não tenho nada contra, mas nunca iria trazer do Brasil, gastar um dinheiro desses se já tem porco aqui. Quer dizer, eles fazem um sensacionalismo que nem acho legal. Mas é para não esquecerem que o Hermeto é louco – eles acham que eu sou louco, né? Olha só se eu seria inteligente se me desse ao trabalho de levar porco para qualquer lugar do mundo, se em todo canto tem porco. Qual é o país que não tem porco? Nem falo isso criticando, falo porque as pessoas são inteligentes, e quem leu no jornal não acreditou. Como eu ia ter o trabalho de levar 12 porquinhos? Só que eu ri… Imagina eu fazendo isso? Mesmo que não faça, me imagino fazendo, seria engraçado mesmo chegar com um monte de porco. Aí, sim, eles iam me torrar junto, hehehe”.

De tão improvável que é, Hermeto Pascoal e sua música suscitam estórias como essa. Não duvidem nada, portanto, até porque anos antes porquinhos estiveram no estúdio com ele. O bruxo gravou um disco nos Estados Unidos em 1976, Slaves Mass, no Texas, mais precisamente. Um casal de crianças levou dois porquinhos, eram seus bichinhos de estimação.

Sambrasa Trio – Em Som Maior (1965 )

http://terceirohomem.blogspot.com.br/
http://br-instrumental.blogspot.com.br/

O Sambrasa Trio foi uma das mais interessantes formações da fase áurea do samba-jazz. Formado por Hermeto Pascoal (piano), Humberto Clayber (baixo) e Airto Moreira (bateria), fundia elementos de samba, jazz, batidas afro e até rock. Despontava ali a criatividade absoluta de Hermeto, com seus acordes repletos de nuances harmônicas inusitadas.

Neste disco, o baixo de Clayber surgia ainda mais vigoroso que nos trabalhos com o Sambalanço Trio e o Sambossa/5. Já Airto tirava da bateria sons furiosos, ao melhor estilo do rock’n’roll. No repertório, entre outros temas, Sambrasa (Airto), Aleluia (Edu Lobo/Ruy Guerra), Duas Contas (Garoto), Arrastão (Edu Lobo/Vinícius de Moraes), Coalhada (Hermeto Pascoal) e João Sem Braço (Clayber).

Toninho Spessoto – extraído do JC OnLine

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A rarely early bossa recording from Hermeto Pascoal — heard here on both piano and flute, and working in a pre-Quarteto Novo trio alongside a young Airto Moreira on drums! The sound is much more conventionally bossa than any of Hermeto’s later work — but still filled with a tremendous sense of fluid grace and invention — a markedly different mode than some of his contemporaries of the time, and a sound that really hints at the genius to come. Airto’s totally great too — hitting the drum kit in all sorts of unusual ways, and already demonstrating a strongly melodic approach to percussion. The last member of the group is bassist Humberto Clayber, who also plays a bit of cool harmonica — and titles include “A Jardineira”, “Clerenice”, “Duas Contas”, “Arrastão”, “Sambrasa”, “Aleluia”, and “João Sem Braço”.

Kenny Brown – O furacão do Blues!

http://www.nandopires.com.br/blog

A música é realmente uma coisa impressionante… Tem shows que te põe pra cima, outros pra baixo e ainda há aqueles que te sacolejam como um furacão faz ao arrebatar as coisas, centrifugando o que estiver em seu caminho.

Temos sido palco de inúmeras atrações internacionais e anda muito frequente toparmos com as propagandas de grandes nomes mundiais cujos super espetáculos nos mega estádios custam hiper preços! (risos) Mas o Brasil também vem sendo palco de outra gama de artistas internacionais que recolhe um know how e histórico espetaculares, que por algum motivo (como acontece em qualquer lugar), não desfrutam de tanta exposição como a diminuta meia dúzia dos ”pop stars”.

Não, não se trata de um manifesto ou reflexão sobre a mídia, mas da constatação de um simples fato: Fama e qualidade são palavras distintas, muitas vezes distantes e vale muito à pena estar “antenado” nas opções que por vezes nos passam despercebidas.

Vindo diretamente de New Orleans – USA para o Brasil e tendo aqui adotado como sua morada, se encontra o veterano furacão da guitarra Kenny Brow! E se o chavão – “toca muito!” pode se aplicar a alguém, certamente é a ele!

Pintando e bordando pelos SESCs, SESIs, centros culturais, melhores bares, pubs, casas de shows e festivais de blues e jazz brasileiros Kenny vai abduzindo seu público e os levando a emoções como as de uma montanha russa pelo seu show repleto de hiperativa energia divertida! E tudo isso bem aqui à nossa disposição (tanto no bolso, quanto nas datas e na proximidade)!

Aí vai uma breve síntese das peripécias que Mr. Brown já aprontou: Ele tocou com os Neville Brothers, Bobby Womack, Marva Wright, Gloria Gaynor, Beau Jones, Blues Etílicos além de ter participado de jam sessions com Slash (Guns N’ Roses) e Stevie Ray Vaughan. É mole?!

Seu repertório vai do blues ao jazz, passando pelo soul e funk (não o carioca! rs…) e, com sua expressiva guitarra e potente voz rouca toca composições próprias e clássicos como “Thrill is Gone” (B.B. King), “Sex Machine” (James Brown), “I Wish” (Stevie Wonder), além de canções de outros gêneros como “I Shot the Sheriff” de Bob Marley e 1999 do Prince. Um show definitivamente inesquecível!

Desta forma, é com imenso prazer que venho trazer o trabalho mais do que “saturado” de virtudes e de qualidades do bluesman e showman – Kenny Brown!

Interessou?! Então confiram as músicas, vídeos e fotos de Kenny em seu MySpace (myspace.com/kennybrownguitar) ou em seu Facebook (facebook.com/kennybrownguitar).

20 Álbuns de 2013 parte 1

http://www.tropicalia.be/pt/

A primeira semana de 2014 se encerra e quase todas as listas dos «melhores» de todos os tipos saíram em revistas, jornais, blogs e sites mais ou menos especializados. Sempre prezei chamar esta enumeração de « favoritos», pois seria bastante pretensioso afirmar que eu vi tudo e escutei tudo, longe disso… Do mesmo modo, é difícil avaliar um álbum que chega nas nossas mãos no final de dezembro, enquanto escutamos um outro há alguns meses. E pode mesmo ser que, nesse meio tempo, cansemos deste último, privilegiando a novidade […]

Enfim, devo ser honesto. A lista de «meus preferidos» não seria a mesma da que considero como os “melhores” do ano…

Existem álbuns importantes que só escutamos uma vez ou duas e, em seguida, aqueles que degustamos como guloseimas, mas que nunca farão história…

Em suma, é levando em conta esses dados que lhes proponho, durante este mês de janeiro (em paralelo com o programa rádio Tropicália MPB) 20 álbuns – subdivididos em 4 partes – que se encontram um pouco na intersecção de todas estas considerações…

CÉREBRO ELETRÔNICO: “Vamos pro quarto”

Quarto álbum para o grupo paulista liderado pelo agitador cultural da megalópole que é Tatá Aeroplano. “Vamos pro quarto!” exala perfumes psicodélicos, às vezes bucólicos, sem ser uma cópia pálida de um ambiente pós-hippie. As composições têm um formato de canção de 3 a 5 minutos e, alternam as passagens cantadas – frequentemente com frases repetitivas -, com longos momentos instrumentais, onde o rock e o funk possuem igualmente seus lugares. A voz de Tatá Aeroplano se destaca tanto nas atmosferas viajandonas (lembrando às vezes Secos e Molhados) quanto nas incisivas. Um álbum empolgante e decididamente contemporâneo.

ANDEI FURLAN: «Dia de casa»

Para muitos, o disco «pop» perfeito de 2013 é a obra de Marcelo Jeneci, com «De graça». Pode ser sim… Mas a estes, aconselharei amigavelmente de escutar com atenção «Dia de casa», o primeiro álbum de Andrei Furlan, compositor e saxofonista oriundo de Ribeirão Preto (SP), produzido por Gustavo Ruiz (Tulipa, Trupe Chá de Boldo). Furlan executa um «sem falhas» com um álbum sem tempos mortos, que contém dez composições irresistíveis (entre as quais o excelente Olhos do tempo!), que flertam, às vezes, com uma sonoridade dos anos 80 através dos seus teclados, mas que se banha em um espírito e arranjos totalmente contemporâneos. Uma das belas surpresas de 2013…

ANDREIA DIAS: «Pelos Trópicos»

Para seu terceiro álbum solo, «Pelos Trópicos», Andreia Dias decidiu realizar um circuito em diversas capitais brasileiras – principalmente do Nordeste – para nelas gravar canções impregnadas dos ritmos de cada região, acompanhada por convidados locais. Pela forte personalidade de sua interpretação e a qualidade de seus textos que existiam em seus precedentes «Volume 1» (2007) e «Volume 2» (2010), Andréia consegue dar uma bela coesão a este mosaico de canções. Difícil ser mais eloqüente do que o título e a capa do disco: «Pelos trópicos» é um álbum exuberante que esparrama tantas cores e perfumes quanto os frutos do chapéu de Carmem Miranda, a quem Andréia se refere, frequentemente, durante os seus shows…

APANHADOR SÓ: “Antes que tu conte outra”

Para este segundo disco, «Antes que tu conte outra»,parece que os quatros rapazes de Apanhador Só (Rio Grande do Sul) se puseram a compor canções no violão acústico, antes de descontruí-las com a ajuda de uma infinidade de achados sonoros: utilização de efeitos sonoros, distorções, breaks e alternâncias contínuas de ritmos e temas no seio propriamente dito da composição.

O conjunto forma um patchwork apaixonante, e sentimos esta estranha sensação paradoxal de escutar uma obra acústica particularmente elétrica, ou vice-versa!

CACÁ MACHADO: “Eslavosamba”

Na data do dia 14 de agosto de 2013, será possível encontrar uma resenha detalhada da menina dos meus olhos do ano passado: “Eslavosamba” de Cacá Machado…

Dela extraí algumas linhas…

«…Machado demonstra que o samba não está, necessariamente, confinado nos quintais e nos morros, e que ele pode ser concebido por um espírito urbano e intelectual, sem, no entanto, cair na armadilha do hermetismo. A base do álbum é o samba, mas ele integra aqui muitos outros ritmos ou elementos que, na consciência coletiva, não estão, geralmente, a ele associados…

“…Uma constatação é evidente ao lermos os nomes dos inúmeros convidados do álbum: Cacá Machado quis integrar o erudito ao popular, misturar o elétrico e o acústico, e reunir a velha e a nova geração (da vanguarda) paulista. Tudo isso resulta em uma perfeita harmonia, diria mesmo, em uma espécie de álbum conceitual, que incorpora a cultura eslava às raízes brasileiras, como sugere a vinheta «pagode polaco».

«Eslavosamba» é na verdade um álbum muito accessível e emocionante cuja sofisticação está a serviço de uma incansável curiosidade do ouvinte.

à seguir…

Música: 11 discos nacionais de 2013 para ouvir já

Para ouvir a entrevista e ver os links visite o site: http://agambiarra.com/

E não foi só a música gringa que alçou grandes vôos em 2013, não senhor. Em terras tupiniquins muito se viu de novidades e bandas que fizeram estreias colossais, deixando um belo (e árduo) caminho traçado para 2014. Àqueles que querem conhecer, reunimos aqui 11 discos (e uma exceção, mas é surpresa) para abrir a cabeça para a música nacional e independente.

Caso seja a sua onda, não perca tempo. É crucial dar a devida atenção aos festivais de música independente, espalhados aos montes pelo país. As coisas mais legais e interessantes nascem ali. Vamos à lista – textos escritos pelos colunistas Raul Majadas, Gabriel Mota, Cainã Vidor e Angelo Malka.

1) As Plantas que Curam – Boogarins

Parece que a referência aos clássicos sucessos nacionais de outrora tem surtido efeito. Pelo menos é um viés que o Boogarins experimentou em 2013. Sorte de principiante pode ter ajudado a banda, que estourou lá fora ao mesmo tempo em que trilhava caminhos respeitosos aqui no Brasil. Lançando o EP “As Plantas Que Curam”, os goianos trouxeram basicamente referências a dois nomes específicos que têm cacife suficiente para dizer “eles são sim um sucesso”: trata-se de Os Mutantes e Tame Impala.

As faixas de “As Plantas” trazem um rock psicodélico nostálgico mas carregado de atitude e adequado aos dias atuais. É uma viagem psicodélica não muito vista nos dias de hoje, o que torna a necessidade de seguir o trabalho do Boogarinas ainda mais obrigatória. Confira aqui a entrevista que fizemos com os garotos.

2) Claridão – Silva

Em um ano em que a música estrangeira deu uma surra vergonhosa na brasileira, Silva surge como a luz no fim do túnel, para os que ainda acreditam que é possível renovar nossa MPB. Talentoso, antenado e sem medo de brincar com referências que vão do rock pós-punk à música eletrônica, esse jovem artista capixaba conseguiu, em seu álbum de estreia, manter a “fofura” que reina na sonoridade da música alternativa nacional desde que o Los Hermanos tornou-se banda de grandes plateias, sem, no entanto, limitar-se a ela, um mal que acomete artistas como Clarice Falcão, por exemplo.

Há, portanto, muito mais em “Claridão” do que a simpatia ligeira, mas esquecível, de “A Visita”: há canções realmente muito boas, que demonstram talento, pesquisa, lirismo. É o caso das lindas “Mais Cedo” e “2012″.

Silva, apesar da juventude, parece saber exatamente o que fazer para, mesmo com fofura, dar dimensões mais profundas para a nova música brasileira. Ele não está sozinho: Filipe Catto, Tiago Iorc e Cícero são nomes a observar. Resta ver o que vem pela frente. Aguardamos ansiosamente.

3) Vamos pro Quarto – Cérebro Eletrônico

A banda já tem história, mas depois de três anos conseguiu provar porque se diferencia tanto da nova leva de artistas nacionais: Cérebro acertou em cheio com Vamos Pro Quarto, disco que traz elementos sonoros comparados aos Novos Baianos ou à áurea fase experimentalista de Os Mutantes. É certo que não chega a ser algo extremamente experimental, mas resgata no ponto certo aquele delicioso nacionalismo de outrora, com roupagem moderna que nos enche de orgulho. Leve, viciante e recheado de amor preguiçoso. Fica impossível não se inebriar com o retorno do grupo.

Pra resumir bem sem enrolar: lisérgico, urbano, experimental e genial.

4) Stereochrome – Far From Alaska

Do Rio Grande do Norte vem uma das maiores surpresas do ano: lançado em dezembro, o EP “Stereochrome” despertou os ouvidos de muita gente. O sucesso se deu depois que o grupo venceu o concurso Som Para Todos e abriu o Planeta Terra de 2013.

Arrancando elogios constantes da vocalista e líder do Garbage, Shirley Manson, o bom e velho rock ganhou representatividade nas mãos do grupo e serviu de apoio para a iniciante carreira ganhar fôlego e respeito da mídia especializada. Que mais e mais de Far From Alaska chegue!

5) Audac – Audac

Os curitibanos tiveram uma sorte grande: caíram no gosto de Gordon Raphael, responsável por descobrir nada menos que The Strokes no longínquo ano de 2000. As referências ao trip hop, eletrônica e rock criam uma mistura gostosa de se ouvir. E o padrinho, que sabe bem o que faz, tratou de colocar a banda no trilho certo, ajudando o grupo a ter poder de fazer sucesso em qualquer canto do mundo.

O resultado? Um disco de estreia homônimo que nos faz ter orgulho dos jovens talentos nacionais que muitas vezes estão escondidos em algum canto do país.

6) Rio Shock EP – Rio Shock

O maior nome nacional de funk-mashup entrou na onda de uma tendência que promete fazer ainda mais sucesso em 2014. O Future Garage ganhou representatividade verde e amarela nas mãos de João e seus comparsas. O EP “Rio Shock” traz a mistura de timbres clássicos do house dos anos 90, pop e o bom e velho funk melódico.

Bem, tudo em que João Brasil bota a mão vira ouro e com este EP não é diferente. As criações atingem em cheio os gringos cada vez mais curiosos sobre a sonoridade alegre e escrachada dos brasileiros. Música para exportação. É assim que Rio Shock consegue figurar entre as mais respeitadas apostas para o ano de 2014.

7) Worker – Cambriana

Este ano foi um ano importante para Cambriana. Ainda colhendo os sucessos de “House Of Tolerance”, a banda lançou o EP Worker e provou para meio mundo de uma vez por todas que é possível fazer um pop-rock de extremo bom gosto cantado em inglês aqui, em terras tupiniquins.

A qualidade continua a mesma do primeiro disco e o reconhecimento veio com o que muitos artistas almejam: a banda teve uma de suas faixas escolhidas para a trilha sonora de Além do Horizonte, novela da Rede Globo. Isso rendeu respeito e vários convites para festivais por todo o Brasil.

8) Zeski – Tiago Iorc

A música nacional merece destaque na lista dos melhores de 2013. Tiago Iorc ainda não é tão conhecido. Mas isso é questão de tempo. Com uma carreira que teve muita ajuda da TV (suas músicas têm entrado facilmente na trilha-sonora de várias novelas), Tiago deu um ótimo passo adiante quando resolveu não cantar apenas em inglês. Zeski é a prova disso.

De quebra, conseguiu a participação especial de Maria Gadú, que acabou ficando menos chata dividindo os vocais com Iorc em Música Inédita. E de quebra de novo, deixou Tempo Perdido (sucesso da Legião Urbana) ouvível, sem parecer uma daquelas inúmeras homenagens maçantes que sempre temos por aí.

9) Cavalo – Rodrigo Amarante

É silêncio, tarde na praia, noite de chuva. Amarante não oscila, e, na minha humilde opinião, no seu primeiro álbum solo, apresenta com tranquilidade algumas sensações que já havia esboçado no “4”, último disco dos Hermanos.

Dessa vez, parece menos perturbado, menos inquieto. Talvez tenham faltado algumas doses de cachaça. Ainda assim, lindo sem ser monótono. Cavalo é pra quem sabe conviver consigo mesmo, mesmo que às vezes não seja tão saudável.

10) Bianca

Apesar de ainda não ter disco gravado, essa lista ficaria incompleta sem Bianca. Para os desavisados, a sensação é que Regina Spektor lançou coisas novas em 2013. Mas na verdade não passa de Bianca. A comparação é inevitável e logo deixa de ser maléfica. Bianca surgiu em meio a muita coisa nova de terras brasileiras e logo caiu no gosto do público especializado em separar joio do trigo. A carioca adora Rita Lee, e Cazuza, mas se inspira também em Bon Iver na hora de criar suas canções.

O nome simples, e apenas isso, além das faixas em inglês – pode deixar tudo ainda mais relacionado a alguma cantora internacional. Isso deixa o trabalho ainda mais surpreendente, principalmente quando converte haters de brasileiras cantando em inglês em fãs apaixonados.

11) Baile Desgraça – Daniel Belleza e os Corações em Fúria

E para aqueles que estão saudosos de um bom rock feito no coração do estado de São Paulo, aí vai. Daniel Belleza e sua trupe de roqueiros vieram em 2013 olhando para você e jogando um dedo do meio na cara de quem diz que o rock paulista está na merda.
Não que a coisa esteja realmente assim tão boa. Ou um pouquinho boa. Enquanto tivermos uns caras como Daniel, os corações furiosos poderão se acalmar. E que o baile venha abaixo!

Lista: Os Melhores Álbuns Nacionais de 2013

http://rpblogging.wordpress.com/

20. De Dentro da Gaveta da Alma da Gente – Fernando Temporão

Gênero: MPB

Fernando Temporão não é o único músico brasileiro que abre a gaveta de sua alma para arquitetar sua carreira, mas ao explorar um conjunto que se afasta das mesmices da música introspectiva, o artista carioca faz de seu primeiro disco um convite a uma dança alegre e suave, distante das agonias e do cenário negro que muitas vezes se instalam na música autoral. Tristezas sempre existem, é verdade, mas por que não explorar os aspectos da vida de uma maneira mais positiva? Com um delicioso jogo instrumental, que passeia por diferentes gêneros da música e mantém, ao mesmo tempo, a unidade do disco, Temporão nos convida com “De Dentro da Gaveta da Alma da Gente” a folhar aquelas fotografias que retratam a beleza muitas vezes escondida do nosso dia-a-dia.

Com letras que se comportam como verdadeiros retratos, recortes do cotidiano do compositor, a base lírica é adornada em total comunhão com os rumos sonoros. Aproveitando a produção de Kassin, Temporão borda um minucioso conjunto de bases instrumentais sólidas, que vagam do moderno ao pueril em um sentido de total naturalidade… Em poucos segundos, há mudanças de gênero e direção, mas sempre mantendo um caminho a ser seguido. A música tropical, com o calor característico do Brasil, é aproveitada pelo compositor como a delineadora total de uma musicalidade rica, repleta de elementos. Do jazz ao brega, Temporão consegue fazer de seu primeiro álbum uma concisa viagem sonora.

Ao mesmo tempo (e talvez aí está a grande interferência de Kassin), o disco sabe soar pop. Seja com números serenos ou com acompanhamentos eletrônicos, Temporão, acompanhado de seu ótimo senso lírico e de seu vocal acolhedor, torna os objetos da gaveta de sua alma um bem comum, oferecido para as mãos dos ouvintes. Afinal, não é preciso falar difícil, com extremo simbolismo, para expor ao público os mais íntimos sentimentos.

19. Impossível Breve – Jennifer Souza

Gênero: MPB/Folk

Como é bom acompanhar, agora com mais evidência, a bela voz de Jennifer Souza. Ainda que se destaque na banda Transmissor, elogiado grupo mineiro do qual ela faz parte, só um trabalho solo seria capaz de demonstrar, em totalidade, todo o talento detido pela jovem. Seja com suas letras inteligentes ou com seu vocal sensível, Jennifer encontra o complemento natural e necessário de sua carreira ao encarar “Impossível Breve”, seu primeiro disco totalmente seu. Refletindo seus próprios anseios e suas emoções mais íntimas, a musicista borda um disco inegavelmente bonito, que passeia livremente por um cenário agridoce em um exercício certeiro de encantamento.

A voz e as letras pertencem a Jennifer Souza, os temas líricos são intimistas, mas ela faz certo ao não negar os elementos que vêm construindo sua carreira junto ao Transmissor. Pequenos nós musicais provenientes da banda ajudam Jennifer a amarrar suas inspirações, tecendo uma teia dinâmica e envolvente. Adornando os vocais, que formam, no fim das contas, o elemento mais destacável de “Impossível Breve”, a base sonora caminha sem tropeções ou escorregadas por um musicalidade fina, pomposa, que às vezes é capaz até de nos fazer lembrar dos mais refinados ensaios da bossa-nova. Sobram toques de jazz, o indie rock do Transmissor serve como um ponto de partida, e o folk soturno mostra-se um chão… Mas e os clássicos da música mineira? Encontram-se representados, é claro, naquela velha e boa readaptação dos elementos plantados por Milton Nascimento e Lô Borges lá nos anos setenta.

A própria participação de seus companheiros de Transmissor auxilia Jennifer ao produzir a sucessão de acertos do seu primeiro disco. Sim, a voz dela é encantadora, mas o que seria dela sem o acompanhamento de belíssimos arranjos? Talvez acompanhando o processo construtivo do disco, as temáticas também parecem partir do pessoal rumo ao coletivo. Embora representem passagens íntimas da cantora, as bases líricas vão aos poucos tornando-se retratos familiares, para que, no fim, todo ouvinte possa ser atingido pelas nuances pregadas pela compositora.

18. Quebra Azul – Baleia

Gênero: MPB/Post-Rock

Ao passear pelo oceano musical do primeiro disco da banda carioca Baleia, uma pergunta torna-se inevitável: como isso tudo é possível? Muito mais do que uma alegria, é uma bênção existir um novo grupo brasileiro disposto a encarar arranjos primorosos. Desde o cover refinado de “What Goes Around… Comes Around”, que apresentou o coletivo aos quatro cantos do Brasil, o que adorna a Baleia é a grande expectativa de haver, dentro daquele sexteto, um dos melhores projetos musicais desta década.

O processo lento que envolveu a produção de “Quebra Azul” pode até ter decepcionado alguns, ainda mais nesses tempos em que a regra parece ser “consumir com rapidez”. Mas os mais pacientes foram recompensados. A lentidão, aliás, se tornou uma grande aliada do conjunto, que pôde conhecer melhor a si mesmo à medida em que os dias passavam. Em dois anos, eles foram se distanciando dos toques jazzísticos para experimentar um conjunto bem mais amplo de referências, em um sentido mais do que correto de expansão. Com tanta sensibilidade em mãos, os músicos souberam como se apresentar a novos cenários, possibilitando novas possibilidades e uma riqueza cada vez maior de detalhes à sua base musical.

Ouvir “Quebra Azul” é ser, enfim, envolvido pelos detalhes. Em meio a uma fluidez tão dinâmica, que cria paredões de sons instáveis, que se transformam em poucos segundos, fica até difícil saborear tudo em apenas uma oportunidade. A cada nova audição, um novo conjunto de detalhes se revela, tornando o disco cada vez melhor. De fato, a salada musical de “Quebra Azul”, com suas variações entre o simples e o complexo, passeando por diversas vertentes, cria uma atmosfera sedutora de infinitas nuances. Impossível não se sentir provocado por tudo que o álbum proporciona.

17. Beija Flors Velho e Sujo – São Paulo Underground

Gênero: Avant-Garde Jazz

Como é difícil explicar o som do São Paulo Underground, deixemos que o próprio Rob Mazurek cumpra este papel: segundo ele, “o som precisa ser dividido, quebrado, batido, acariciado, beijado, afundado, enterrado e catapultado para novas dimensões de modo que inicie um diálogo entre universos”. Eita… Como diziam naquele antigo programa, senta que lá vem história!

Para início de conversa, é preciso que se deixe bem claro o conceito de “Beija Flors Velho e Sujo”: em contraponto ao passado do projeto, o novo disco é bordado para ser “acessível”. Para se ter uma ideia, existe até uma clara homenagem a Ivete Sangalo na quinta faixa do álbum, “Evetch”. Mas como pode um registro de jazz experimental soar de fácil acesso ao público em geral? Aí mora o “diálogo entre universos” citado por Mazurek. Todo o disco é formado por um conjunto fantástico de arranjos que amarram, a todo instante, o Brasil de Maurício Takara e Guilherme Granado com os Estados Unidos de Rob Mazurek. Pois é pegando carona nos elementos do tropicalismo, brincando com os ritmos quentes e as cores vivas do nosso país, e até flertando com melodias carnavalescas, que o São Paulo Underground faz com que os mundos do pop e do experimental, tão distantes, possam conversar entre si.

De resto, os mesmos êxitos instrumentais que já haviam sido apresentados em outras oportunidades se fazem presentes, não abandonando, porém, o teor de inovação que sempre caracterizou o projeto. A corneta de Mazurek voa pelo disco, costurando coloridas vestimentas sonoras do início ao fim do registro, enquanto Takara e Granado trabalham como operários, pedreiros, assentando os tijolos sobre os quais seu companheiro norte-americano se aventurará. Das programações eletrônicas brilhantemente construídas, das percussões que dão ao disco a cara da música brasileira, provém toda a base capaz de fazer o São Paulo Underground encarar, mais uma vez, a louvação. Seja aqui no Brasil ou nas terras do Tio Sam, o que não falta é gente elogiando toda a invenção proposta pelo trio.

16. Vamos pro Quarto – Cérebro Eletrônico

Gênero: Rock Psicodélico

A banda paulistana Cérebro Eletrônico nunca foi de esconder o jogo, e em “Vamos pro Quarto”, seu quarto álbum, o conceito fica claramente exposto logo na capa. Representando a pintura “O Jardim das Delícias Terrenas”, fabricada em 1504 pelo artista holandês Hieronymus Bosch, a imagem representa um erotismo místico que chocou o público da época. Para a Cérebro Eletrônico, em 2013 a orgia pode ser representada em forma de música, e “Vamos pro Quarto” parece se comportar como um verdadeiro tratado dos prazeres mundanos. Segundo os paulistanos, a ida ao céu ou ao inferno é apenas um detalhe irrelevante, e os aspectos nada inocentes da vida devem ser aproveitados ao máximo.

Concordando ou não com os caras, é inevitável sentir-se atraído pelas bases que compõem o presente registro. Ao propor uma viagem lisérgica pelos cenários mais errôneos da cidade de São Paulo, a banda cheira os perfumes das prostitutas da Rua Augusta e compartilha garrafas de pinga com mendigos debaixo de um viaduto… Nojento, não? Que nada! Como se, de uma hora para a outra, todo o aspecto cinzento da metrópole se transformasse em um bonito conjunto de cores, a Cérebro Eletrônico consegue levar beleza aos cenários mais inimagináveis.

Um disco improvável, instigante e deliciosamente inventivo, “Vamos pro Quarto” aproveita do leque infinito de possibilidades do rock psicodélico para brincar com o desconhecido. Porém, já experiente, a banda sabe como mesclar essa base totalmente lisérgica com a música pop para torná-la de percepção próxima dos ouvintes. Verso após verso, faixa após faixa, tudo no disco parece ser minuciosamente pensado não apenas para agradar, mas para surpreender quem topa o ousado passeio proposto pela Cérebro Eletrônico.

15. Dorgas – Dorgas

Gênero: Chillwave

Renovação é a palavra-chave do primeiro registro de longa duração do Dorgas. Ainda que as bases dos EP’s anteriores se façam presentes, “Dorgas”, o álbum, é levado em consideração pelo quarteto como uma grande experiência de descoberta. Cada vez mais distantes do jazz chapado das primeiras músicas, ou até mesmo do rock, Cassius Augusto, Eduardo Verdeja, Gabriel Guerra e Lucas Freire abraçam os rumos atuais da música eletrônica estrangeira para construir uma obra feita para dançar. Recheado por vertentes como chillwave, dream pop, madchester, Miami bass e new wave, o disco pode até soar como um registro feito por hipsters para hipsters, mas mesmo assim se caracteriza como um dos registros mais inventivos dos últimos tempos da música brasileira.

Como se aproveitasse o cenário Lo-Fi popularizado por Silva no disco “Claridão”, o Dorgas não deixa de apresentar elementos novos à música tupiniquim. As bases chapadas do Primal Scream no clássico “Screamadelica” parecem ganhar contornos verde-amarelos, dando um significado tropical aos sintetizadores do hemisfério norte. No fim das contas, o álbum de estreia do Dorgas é uma trilha sonora perfeita para as festas mais intensas do litoral brasileiro nos dias quentes de verão… Um disco regado a muita energia, diversão, descontração e, é claro, drogas sintéticas… Ou você achava que o grupo tinha esse nome devido à numerologia?

Pois saiba que do título à capa, todo o conceito do disco é perfeitamente representado. Com sua sonoridade quente e envolvente, o quarteto carioca vai construindo um trabalho digno de entorpecer qualquer ouvido. Melodias hipnóticas, efeitos psicodélicos e vocais distantes – que funcionam como mais um elemento em meio à salada instrumental – fazem com que a ingestão de alucinógenos nem seja necessária para a perfeita contemplação do registro. Sim, o Dorgas quer te entorpecer, e se eu fosse você, deixaria ser levado por essa agradável experiência.

14. Vazio Tropical – Wado

Gênero: MPB

Uma figura ímpar da nossa música, o catarinense-alagoano Wado nunca se contentou em permanecer no mesmo lugar (e olha que tal afirmação nem leva em consideração aspectos geográficos, visto que ele é um sulista radicado no nordeste). As mais importantes mudanças de direção estão, definitivamente, nos rumos de sua carreira; afinal, o artista sempre tentou fazer de seus registros trabalhos únicos, diferentes um dos outros tanto em estilo quanto em conceito. Desde sua parceria com a banda O Realismo Fantástico até os toques sintéticos que permearam o aclamado álbum “Samba 808″, a carreira de Wado se comporta como uma das mais inventivas e produtivas da cena alternativa nacional.

“Vazio Tropical”, o sétimo disco de sua carreira, pode até ser considerado como o menos surpreendente exemplar de sua discografia, mas apresenta mais um ponto de desgarramento. Novamente, Wado convida o ouvinte para um exercício quase hipnótico de esquecimento do passado, deixando de lado os conceitos que haviam construído seus álbuns anteriores: nada do suingue de “Terceiro Mundo Festivo”, tampouco a herança africana de “Atlântico Negro” e muito menos o rumo eletrônico de “Samba 808″. Pra variar, Wado faz de seu novo álbum um conjunto de novas abordagens, ao costurá-lo com texturas muito mais calmas e intimistas.

Ao investir em uma sonoridade basicamente acústica, Wado renuncia a utilização da base dançante que havia construído grande parte de sua carreira até agora. Afinal, “Vazio Tropical” é uma obra serena, tocada pela sutileza, buscando na MPB da década de setenta muitos dos conceitos que a constroem. Mas estaria o músico, ao investir em antigas ideias, abandonando a veia experimental que tanto tem caracterizado sua carreira? Talvez a grande surpresa de “Vazio Tropical” esteja justamente no fato de sua sonoridade não surpreender: enquanto todos esperavam mais uma obra inventiva, Wado utiliza-se do encontro da atual com a velha MPB para construir mais um cenário de evolução da sua carreira. (Leia a resenha completa do disco)

13. Bixiga 70 – Bixiga 70

Gênero: Jazz/Afrobeat

O segundo álbum do Bixiga 70 é colossal. Procurando representar em estúdio as apresentações incendiárias do conjunto, o registro passeia por uma infinidade de referência do jazz e do afrobeat em um sentido de completa expansão. Ainda que mais ameno que o álbum anterior, o presente registro propõe uma viagem pelo Brasil, pela África e pelo hemisfério norte a fim de encontrar o crescimento definitivo do conjunto.

Naturalmente tropical, o álbum encontra em uma musicalidade quente, que não decai em nenhum momento, um ponto de rápida afirmação. Envolventes, as canções nos prendem de forma com que nos sintamos parte integrante do projeto, espectadores de uma apresentação ao-vivo. Acertando em cheio no conceito e alcançando sem nenhuma dificuldade o resultado desejado, o segundo disco do Bixiga 70 se comporta como um dos grandes clássicos jazz nacional, implementando uma sonoridade extremamente pulsante em nossos ouvidos.

Indo de Miles Davis ao carimbó, dos cenários arenosos da África à paisagem cinza da capital paulista, o Bixiga 70 parece não querer se prender a rótulos. Percorrendo várias vertentes da música experimental e avançando a largos passos além das fronteiras de São Paulo, a big band cumpre com louvor o papel de construir uma obra universal, pra lá das noites do Baile do Bixiga.

12. Pearl – Rubel

Gênero: MPB/Folk

Desgarrar-se das raízes é sempre uma boa oportunidade para encontrar melhor o que há no interior. O carioca Rubel, enquanto estudava cinema na cidade de Austin, no Texas, viu seu íntimo se aflorar na composição de “Pearl”, seu primeiro disco. Uma união da MPB carioca com o folk texano, o álbum se comporta não apenas como um toque de novidade na tradicional música tupiniquim, mas, principalmente, como uma genuína explosão sentimental.

Provavelmente o músico mais brasileiro mais próximo da musicalidade confessional de Nick Drake, Rubel aborda, com um formidável conjunto de acordes, a sua genuína base sentimental. Tratando da profundidade de seus sentimentos, mas conseguindo tocar a alma dos ouvintes, o jovem arquiteta uma imensidão sonora capaz de ser apresentada em apenas sete faixas, em pouco mais de trinta minutos.

“Pearl” não é um álbum inovador. Tem como base apenas a voz e violão de Rubel, e reflete, basicamente, a união das tradições brasileiras e norte-americanas… Mas mesmo assim está entre os trabalhos mais assertivos dos últimos anos da MPB. Por quê? Convenhamos que, para a nossa música, um pouco de sensibilidade é sempre bem-vinda. Por mais que se busque o inédito, a evolução, é sempre o coração que dá as ordens. E em seu disco, o jovem Rubel parece tratar, com muita experiência, o rumos dos sentimentos. Cada acorde é um alento, cada verso é um tratado. Não pouca, mas muita sensibilidade.

11. Cadafalso – Momo

Gênero: MPB

Segundo palavras de Wado, presentes no release de “Cadafalso”, o novo capítulo da carreira de Momo, o disco mostra a “coragem para mirar o abismo”. Sem grande técnica de gravação, sem encarar os modernos efeitos sonoros possibilitados pelos estúdios, o músico carioca apresenta e refina o conceito de voz e violão.

Ainda utilizando as palavras de Wado, “o disco é vivo e orgânico, resultado de uma produção que optou por usar o mínimo de ferramentas e recursos de estúdio para deixar voz e violão atuando como protagonistas. O que se ouve é uma sonoridade crua. Voz e violão sem overdubs. Funciona bonito. É quase uma massa de modelar no sentido de ser uma coisa só: o canto juntinho do violão”.

“Momo encontrou uma forma de execução rara”, continua Wado, “de se encontrar na cena atual e sua poesia – e nisso estou envolvido – encontra caminhos novos e inusitados, vezes evitando rimas e noutras nos jogando imagens bonitas, porém desconcertantes”. Se Wado sabe tudo de música brasileira, e se Momo é um dos mais respeitados artistas da safra atual, nada mais justo do que avaliar estas bonitas palavras dando uma oportunidade ao quarto álbum do carioca: sem dúvidas, é um disco que vai te encantar.
Continua…

João Donato | A Bad Donato

http://namiradogroove.com.br/grandes-albuns/joao-donato_a-bad-donato_1970

A experiência funk-psicodélica de um dos músicos brasileiros mais completos de todos os tempos

Gravadora: Blue Thumb/Dubas Musica

Foi o acaso que levou João Donato a se transformar em músico por volta de 1952. Por conta de um problema de daltonismo, não conseguiu ser aprovado na carreira de aviador, um sonho de criança.

No entanto, foi o empenho que o levou ao panteão da música brasileira. Grande explorador do acordeom, mestre no piano e multiinstrumentista nato que sabe trabalhar com gêneros que vão da bossa nova à música clássica, o acreano participou de grande parte dos movimentos transformadores da música brasileira ao longo de seis décadas de carreira.

A Bad Donato hoje é considerado um de seus maiores clássicos, mas sua origem é quase tão casual quanto sua biografia. Seus primeiros momentos de gestação ocorreram com a explosão do funk de James Brown e Sly Stone, que revolucionaram a música popular norte-americana no final dos anos 1960.

Donato já havia fixado residência nos Estados Unidos desde 1959, momento que a bossa nova começou a eclodir no Brasil. (Inclusive, alguns teóricos chamam Donato de azarado por não estar no País nesse momento nevrálgico, já que ele era parceiro de João Gilberto, Johnny Alf, Tom Jobim…)

Esse tempo fora do país foi crucial para ele reverter sua situação artística: se por um lado não era majoritariamente conhecido no Brasil, por outro levou o prestígio de nossos ritmos para a cena internacional que, além dos EUA, inclui Cuba, Rússia, Japão e alguns países da Europa.

Mas, voltemos a A Bad Donato. Naquele momento, o músico queria explorar novos territórios com pianos, órgãos e teclados e ir mais além que o elogiado Piano of João Donato: The New Sound of Brazil (1965).

A explosão da música negra mostrou que trabalhar os acordes com mais agressividade num caldo híbrido formariam uma musicalidade intensa e pancada, bem pancada. O pianista burilou essas ideias por alguns anos, mas foi graças à insistência do músico e parceiro Eumir Deodato que o disco saiu dos papeis.

Reza a lenda que a meticulosidade dos dois músicos gerou algumas brigas durante a gravação do disco, mas certas coisas precisam de uma catástrofe muito desgraçada pra dar errado – algo que, felizmente, não aconteceu com A Bad Donato.

Deodato também morava na América do Norte e ajudou a formar a grande equipe para musicar o disco: Oscar Castro-Neves nos violões e guitarra; Paulinho Magalhães e Dom Um Romão nas baterias; Bud Shank na flauta; Jimmy Cleveland no trombone; Don Menza no clarinete; e mais alguns músicos de estúdio para complementar as ideias do disco.

Deodato ficou responsável pelo arranjo de metais e Donato, além de principal compositor e arranjador, ficou com pianos, teclados e órgão.

O disco começa com “The Frog (A Rã)”, que joga um ritmo de marcha de carnaval na velocidade do funk, cumprindo o que o subtítulo do álbum já entrega: psychedelic-funky-experience.

“Celestial Showers” e “Lunar Tune” enganam o ouvinte que pensa se deparar com baladas: os violões de Castro-Neves se adentram aos efeitos esparsos de órgãos e trompetes, penetrando despretensiosamente em um terreno que o fusion-jazz depois chamaria de seu.

“Debutante’s Ball”, a mais brasileira das canções do disco, poderia servir de trilha para um jogo de futebol: rápido como a velocidade da bola numa cobrança de falta, a faixa joga um tempero caribenho ao afro-beat.

Outra canção de destaque é “Mosquito (Fly)”, que leva aos extremos o gingado da conga. Farto exemplo de como o cuban-jazz, que tanto influenciou a carreira de Charles Mingus na década de 1970, tinha muito a oferecer musicalmente a artistas já consagrados.

Apesar de ser gigantesca obra musical em pouco menos de meia hora de duração, A Bad Donato não é visto com tanta grandiosidade por seu dono. Talvez ele apenas o veja como um de seus muitos giros musicais, que vão do forró nordestino às difíceis partituras de Debussy.

A grande verdade é que nenhum outro disco jogou ritmos brasileiros à agressividade funky com tanta maestria como A Bad Donato. Já que a biografia do músico permite casualidades geniais, bom, eis aí um exemplo irrefutável.

01 The Frog (A Rã)
02 Celestial Showers
03 Bambu
04 Lunar Tune
05 Cadê Jordel (The Beautiful One)
06 Debutante’s Ball
07 Straight Jacket
08 Mosquito (Fly)
09 Almas Irmãs
10 Malandro

GUILHERME ARANTES – CONDIÇÃO HUMANA (SOBRE O TEMPO)

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Parte 1 – Contexto histórico
Final da década de 70. A gente vivia em estúdios, procurando o som pra entrar no mágico mercado dos discos…Os estudios eram templos sagrados, com suas legendárias máquinas de fita de 2 polegadas. Tudo era caríssimo, nas mãos de barões milionários. O vinil, literalmente incopiável, já que os cassettes proporcionavam uma qualidade rudimentar…bons tempos…

O som que se fazia era “eletroacústico”, e embora a musica eletrônica fosse uma coqueluche mundial, não existiam ainda os computadores pessoais, nem a conexão “midi” pra ligar sintetizadores entre si – muito menos o seqüenciamento que dominaria a produção musical…Nesses primórdios, o gênio brilhante de Giorgio Moroder me fascinava, mas eu não tinha os arsenais de “Gate/CV” e sincronização de arpegiadores que eram exclusividades do mestre italiano… Bateria eletrônica só chegaria por aqui em meados dos 80, de sorte que todo o pop, todo a “disco music”, a Black Music que estava no auge, o Funk que ainda engatinhava, tudo era executado à mão mesmo, por músicos. Batidas mais dançantes exigiam dos bateristas precisão de máquina, e todo o instrumental tradicional era valvulado, os itens “modernos” eram transistorizados, pianos, clavinetes, tudo era com captação por solenóides magnéticos…Esse cenário, tendo ao fundo o esplendor das gravadoras no ápice dos vinis, permitia que houvesse uma classe musical sofisticada – oriunda da cena baileira dos anos 60, essa turma fez musica genial e duradoura. Dali emergiriam para o sucesso Novos Baianos, Rita, Raul, Tim Maia, Banda Black Rio, Alceu, Djavan, A Cor do Som, Belchior, Fagner, Milton e o Clube da Esquina, Marina, Lulu, toda uma geração “intermediária” , pós-festivais e pré-Rock in Rio , uma geração que permaneceu…

Nos anos 80, com a ascensão do computador e dos programas de seqüenciamento, a musica sofreria uma transformação radical : já seria possível programar um disco inteiro eletronicamente, em casa, em “demos” e pré-produções minuciosas, e a brilhante geração de músicos de estúdio sofreria um lamentável declínio…Com as pré-produções, a manipulação das direções artísticas das gravadoras passaria a ser total, e a ida para o estúdio ficava para uma mera etapa de finalização…O registro era analógico ainda, mas o método de produzir era digital. Mais tarde o mundo digital a tudo engoliu, desnecessário descrever daí pra frente…
O fato é que na virada dos 70 para os 80 nós estávamos na flor da idade, e eu tinha um som característico, de CP70 Yamaha com Flanger Mutron, e muitas musicas pipocaram daí, completamente armadas por mim – sozinho, sem ninguém meter o bico – Extase, Coração Paulista, Aprendendo a Jogar, Deixa Chover, Planeta Água, Perdidos na Selva ( Gang 90 ) , e mais tarde, já no inicio dos 80, Lance Legal, O melhor vai Começar, Lindo Balão Azul…
Com a aquisição de baterias eletrônicas ( TR 707, LinnDrum ) fui me embrenhando naquele eletropop, estimulado pelas gravadoras, e pelos produtores que passavam a reinar…Aliás, a figura do produtor, nos anos 80, passaria a dominar a cena. Sem muitos músicos pra interferir, os seqüenciadores eram o supra-sumo da prepotência e dos egos de produtores…Ainda bem que eu consegui sobreviver a esse período quase incólume…Digo “quase” porque hoje eu penso que meu som se desfigurou. Não fosse o meu piano, sempre verdadeiro, eu teria sucumbido ao pop de época. Mas a verdade do músico não está apenas na voz, mas especialmente nas mãos… E hoje vejo que tenho mãos poderosas pra alimentar e manter milagres….

Parte 2 – Contexto atual
Cortando para os anos 2000, vim pra Bahia me instalar em Barra do Jacuípe, pra montar uma infra que as gravadoras já não oferecem mais…
Tive que me virar, seja porque fiquei mais velho, sem o “glamour” televisivo, sem prioridade alguma na indústria, ou seja porque a própria industria vem tentando sobreviver num insondável xeque-mate com o digital, a realidade de hoje é toda diferente, e os artistas não têm mais a moleza da velha indústria milionária, mas em compensação têm uma facilidade infinitamente maior para se auto-produzirem…

Então aos poucos fui realizando um estúdio e todos os meus sonhos de jovem, que na época eu não tinha condições de ter, seja por força da truculência da vida aos 30 anos, ou seja porque tudo era caríssimo na época.

E assim foi criado o Coaxo do Sapo, materialização de sonho e de engenhosidades diversas…

Faltava só um disco, que fosse buscar lá nas raízes do meu som, na virada dos 70 para os 80, a minha essência, os meus segredos de sucesso…
Há 7 anos sem lançar nada novo, no final de 2012 entrei literalmente numa crise de identidade. Embora eu tivessa várias canções alinhavadas, o assunto “CD novo de inéditas” se transformou em bicho-papão de um mercado covarde, que só quer sucesso pronto. As pessoas têm verdadeira alergia, têm urticárias quando se fala em “tentar sucesso com música nova”.

Azar de quem tenha bastante sucesso antigo – pois não dá pra comparar nenhuma novidade com produtos antigos, “vintages” enobrecidos pelo tempo. Até os fãs discriminam as novidades e privilegiam as “antiguidades para colecionadores”…

Enfim, a luta é essa. Não fazemos música só pra ganhar dinheiro.

Faço música como o castor faz seus diques, como o sabiá faz seus ninhos, porque nasceram pra essas atividades. Por mais que existam diques e ninhos pré-fabricados no supermercado, não adianta, a minha geração foi e é incrível, estamos todos aí, vivos e cheios de sonhos…

Faço músicas, componho e escrevo porque nasci pra fazer isso e porque essa é a minha função no Universo, independente da serventia e do utilitarismo de uma época.

Parte 3 – Condição Humana ( Sobre o Tempo )
Resolvi mostrar nesse disco, logo de cara, que existe uma “pegada” no piano, (já que o segredo está mesmo nas mãos) “pegada” essa que ninguém jamais vai me copiar. Cada um tem a sua “pegada” no instrumento, eu tenho a minha, e as pessoas gostam de mim por isso, acima de qualquer outra coisa. Isso é claro.

Então este é um disco de “pegada”.O som do Guilherme, com a sonoridade única da virada dos 70 para os 80, está de volta.

Desta vez foi mandatório não fazer nenhuma concessão e não ficar ouvindo abobrinha de nenhum produtor que tenha caído “de para-quedas” no meu trabalho…

Me juntei com a minha banda – Luiz Sergio Carlini ( guitarras, violões ) , Willy Verdaguer ( baixo ), Alexandre Blanc ( guitarras e violões ), Gabriel “Frejat” Martini ( baterias, percussões) e com minha equipe, pra fazer um disco que fosse seminal, no mínimo.

Um disco que passasse a minha visão de estranhamento num mundo que até às vezes parece perfeito…O meu incômodo numa sociedade que até às vezes parece evoluir para a felicidade geral… O meu desconforto num “sistema” que tenta passar a imagem de que a tudo engole, a todas as diferenças se adapta, a todas as minorias contempla, um “sistema” a cada dia mais justo, porém amorfo e chocho, sem arestas nem contestações.

Um “sistema” que transforma todas as inquietações em mercadoria. Uma absoluta “ordem social” politicamente correta, com todos os perigos que essas “perfeições de ordem social” nos remetem. Eu precisava vomitar um disco que viesse sanguinolento, com “guts”, com “culhões” de quem tem o que dizer e está pouco se lixando se o mundo vai aceitar ou não…

Os festivais de música são um desfile bem-comportado de artistas competentes em sua função utilitária de servir à massa, que é uma imensa e generalizada “balada”. Tudo é uma confortável “balada”. Nunca houve um tempo tão ridículo em maneirismos e hábitos, quanto este atual. Essa é a minha sensação e das pessoas da minha geração. Não temos nada mais a perder, estamos na virada dos 60, vovôs, e podemos ser ranzinzas à vontade – aliás, é o melhor que podemos fazer . Um dia, lá na frente, as pessoas vão rir das galeras postando seus vazios nas redes no celular, assim como hoje parecem ridículas nossas roupas e cabelos dos anos 80… Pra minha geração, que viu e viveu os anos 60, Woodstock, Luther King, Godard e a convulsão no cinema, barricadas nas ruas de Paris, o sangue nos porões de uma latino-america lancinante, o mundo em 2013, que não acabou em 2012, é de uma acomodação geral, hilariantemente inaceitável. O “sistema” já equacionou e sabe lidar com as contraposições e propostas alternativas, e a tudo rapidamente amolda em “boxes” de mercado…

As letras deste disco, deste ano, não podiam excluir essa sensação de náusea. Náusea com a corrupção mundial, os ratos dos governos invariavelmente por trás de toda a perversidade e sacanagem do mundo. Náusea com o mercadejar da fé, nesse tempo de tantos apelos ao plano “sobrenatural”, tão ridículo e podre quanto os poderes terrenos. Náusea porque o “politicamente correto” inclui um “respeito” à mentira e à empulhação. Indignação porque todo dia o noticiário traz novas desilusões, o dinheiro correndo solto na impunidade geral. Náusea porque o mundo caminha claramente para o colapso, porque as corporações não estão nem aí e vão até o fim, até a curva populacional explodir, já que nem curva é mais, e sim um elevador vertical rumo a um formigueiro boçal onde a ignorância e a grosseria são parte da “atitude”. O importante é ter “atitude”. O importante não é o que somos, mas o que está na rede. O que não está na Rede, não está no mundo…
Claro que eu fiz algumas canções de amor, já que nem só de indignação e inconformidade se transforma o mundo…

Tem até o resgate de uma “canção de gesta”, que fiz aos 16 anos de idade.

Todas as canções falam do tempo.

Daí o sub-título “Sobre o Tempo”. É esse tempo que passou, e que ainda nos resta, que interessa. É a urgência do grito,e o olhar panorâmico sobre o acervo do que vivi.

Uma conclusâo eu tirei da minha crise :

Jovem é quem corre para a morte. Velho é quem foge dela. Se estou correndo para a morte, ansiando pelo tempo que me resta correr veloz, então ainda sou jovem. Se estou tentando evitar a morte, se procuro qualquer atalho ou ponte para atravessar o destino inevitável, então estou velho. Não à toa, com este disco eu me sinto de novo com 20 anos.

Guilherme Arantes