O mundo infinito de Hermeto Pascoal

De Alagoas para mundo, Hermeto Pascoal rodou um bocado, entre Recife e Caruaru, Rio de Janeiro e São Paulo, Estados Unidos e Suíça, Bangu e Curitiba, onde mora atualmente. “Eu considero todos esses lugares a minha terra, né? Onde eu estou, estou bem. Estou feliz com todo mundo. Minha preferência é onde estou. Posso voltar para onde estava, que também estou bem. Tudo são conseqüências da vida.”

O bruxo multiinstrumentista, que toca flauta, piano e sax com a mesma versatilidade com que tira sons de chaleiras, brinquedos, brocas de dentista e da própria barba, já compôs mais de 4 mil músicas. Nascido em 1936, em Olho d’Água, e criado em Lagoa da Canoa, na época município de Arapiraca, no interior alagoano, Hermeto desde moleque já demonstrava o fascínio pela música, a sua linguagem de contato com o mundo. Reza a lenda que ainda criança fazia pífanos com cano de mamona de jerimum (conhecida no Sul e Sudeste como abóbora) e tocava para os passarinhos. Na lagoa, passava horas tocando com a água. Com o material que sobrava do trabalho de ferreiro de seu avô, tirava sons ao pendurá-los no varal.

O improviso é o mote de Hermeto Pascoal, que tocou com alguns dos nossos grandes instrumentistas, como o flautista Copinha, além da turma com quem formou o Quarteto Novo, em meados dos anos 1960, Heraldo do Monte, Théo de Barros e Airto Moreira.

Nos Estados Unidos, levado por Airto Moreira para gravar, em 1969, conheceu e gravou com Miles Davis. Tornou-se conhecido ao redor do planeta depois da histórica apresentação no Festival de Montreux, em 1979. E no ano seguinte gravou um de seus principais trabalhos, Cérebro Magnético, entre as dezenas de registros que têm, seja participando em trabalhos de outros músicos, no começo da carreira, com as várias formações que já o acompanharam, sozinho, como em 1999, quando lançou Eu e eles, e em duo, pela primeira vez, com a nova companheira, Aline Morena, com quem gravou Chimarrão com rapadura em 2006, que resultou em seu primeiro DVD.

O músico, que mora atualmente em Curitiba, esteve no Rio de Janeiro em meados de abril, para uma apresentação no Copacabana Palace, dentro do CopaFest, evento que reuniu em um fim de semana músicos instrumentais como Marcos Valle e Cesar Camargo Mariano. Hermeto (pronuncia-se Herméto, com o acento agudo no segundo “e”, e não “Hermêto”, como costuma ser chamado no Sul-Sudeste, ensinou certa vez Tom Zé, em um festival em que ambos participaram, em Itajaí, no final do século passado) apresentou-se no primeiro dia, e pouco antes de subir ao palco concedeu esta entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo. “Deus fez a cabeça da gente como um mundo infinito. E, através da energia, que não fica na cabeça, mas paira em volta, faz funcionar todas as partes do aparelho, pois nós somos aparelhos”, acredita. Há os que dizem que o papo acima é de um religioso, como já afirmaram ao próprio músico. “Não, eu sou músico. E, através da música, tenho todas estas percepções. Sou um músico muito intuitivo. Respeito demais a minha intuição, que vem em primeiro lugar. Não ponho o saber, mas o sentir na frente de todas as coisas que faço na vida”, afirma.

Para ele, o bom é evitar o máximo de premeditação, bolar as coisas. Escritas, Hermeto tem mais de 4 mil músicas, o que poderia ser contraditório ao seu discurso. “Não rapaz, eu tenho inspiração e escrevo. Eu não bolei aquela música para escrever. Não faço uma coisa antes, um esquema para compor. Posso compor aqui, onde eu estiver posso fazer uma composição. O lindo disso tudo é ver que estou sempre preparado para o não-esperado.” Se preparar, para o bruxo, é tocar bem um instrumento, para, quando tiver uma idéia, conseguir executá-la. “É como a pintura – me meto a pintar também –, vai vindo uma idéia, e outra idéia e outra. E elas vão acontecendo, como na música. Só que tenho que saber mexer com o instrumento, assim como tenho que saber mexer com a pena. O negócio é não se complicar”, resume, parecendo até simples compor com o refinamento com que compõe.

Inegável que Hermeto tenha um ouvido privilegiado. Mas as intervenções do cotidiano, esse ouvir demais pode chegar a ser perturbador, por exemplo? “É o contrário, eu consigo me integrar com isso. Por exemplo, estou no ônibus, aí tenho a idéia de uma música. Se não tenho papel e caneta, vou cantando aquela música, escutando aqueles sons que acontecem, da rua, do carro, e aquilo ali já vai fazendo parte da minha vida. Nada me atrapalha, a não ser música ruim.” Para ilustrar, Hermeto Pascoal fala da empreitada que seria lunática para muitos – mas não para ele –, que resultou no livro Calendário do som (Senac-SP/Itaú Cultural, 2000), quando compôs uma música por dia, durante um ano. “Me lembro que estava escrevendo um dia, e tinha uma reforma lá perto de casa, os caras batendo com o martelo, ainda naquela fase de quebrar as paredes. Se não tivesse essa experiência [de incorporar o cotidiano em suas criações], ia parar de escrever, por conta do barulho lá, dando cacetada. Só que aquele barulho, para mim, foi primordial para fazer a composição, já que eu não bolo nada. Veja bem, se eu tivesse bolado um jeito de compor e tudo, aí ia me atrapalhar. Como eu não bolo…”

Hermeto compara com as entrevistas que dá e as fotos que tira. Ele não gosta de ser dirigido em uma foto, “vira o rosto, senta aqui, olha pra lá”… “Isso é como você fazer música preso”, diz ele. Tem que ficar a vontade e tirar a foto, afirma ele, assim como para fazer a música. “O que parece uma coisa irresponsável, mas não é. É liberdade. Uma liberdade que, nós músicos, conquistamos, para poder passar para o público. A razão da vida da gente é o público.” Segundo ele, dar esta entrevista não é diferente de estar tocando no palco ou viajando no ônibus. Tudo é uma coisa só, tem uma mesma finalidade: a música. E tudo motiva Hermeto a fazê-la. “Tudo”, ele faz questão de reforçar. “Não gosto de generalizar, mas nesse caso acho que não tem…”, e interrompe a frase para novamente exemplificar com outro momento da época das composições diárias.

“Quando minha mãe faleceu, fui para o enterro. O que é uma alegria. Porque a pessoa morreu, é ruim, mas ela vai voltar para a sua casa. A casa da gente é lá, espiritual. Aí fui para o enterro, todo mundo chorou, eu também dei a minha chorada. Não com tristeza, é com saudade. Falo em saudade. E eu estava fazendo esse livro, era uma coisa que eu sentia, espiritual, tinha que fazer uma música todo dia, não tinha papo. E como não gosto de premeditar, esperava aquela hora em que não estava preparado para fazer. Sempre me pegava de susto.” Os familiares então perguntaram como ele iria fazer a música daquele dia. No que ele respondeu: “Mamãe está dizendo para eu ir correndo fazer a música. Mamãe está feliz, nós é que estamos chorando. Ela se desprendeu com 80 anos, esse corpo aí pesado, que não podia ficar mais aí. Ela está feliz da vida, sorrindo”.

Músico totalmente intuitivo, Hermeto conhece profundamente teoria musical, mas só foi aprendê-la, com uns 40 e poucos anos. “Comecei a aprender deduzindo. Sei essas coisas todas, mas eu uso, coloco sempre o sentir”, faz questão de reforçar. Computadores não estão entre os interesses de Hermeto para criar. Ele prefere um pé de uma máquina, uma pedra, brinquedos infantis, chaleiras, a própria barba, porcos. “Eu gosto mais da magia, da criatividade, algo natural. Não quer dizer que não use um teclado para fazer os acordes. Inclusive componho muito sem instrumento, tenho composto 80% sem instrumento. Porque não sei onde vou estar, e não posso carregar sempre os instrumentos comigo”, revela. O primeiro piano veio só depois do 35 anos. O que foi ótimo, segundo ele, pois teve que desenvolver a cabeça. “Se quero uma sinfônica, eu tenho na minha cabeça, se quero um piano, também. O que quero, tenho aqui dentro da cabeça. Por isso não procuro computador, essas coisas. Quem precisa de mim são eles, para registrar o que faço”, fala sem ponta alguma de arrogância.

Como já mencionado, foi a partir da apresentação em Montreux, em 1979, que o mundo dedicou a devida atenção que Hermeto Pascoal merece. O show foi histórico e, na seara de lendas que o cercam, uma delas fala da tentativa de Hermeto embarcar com porcos para se apresentar no afamado festival de jazz. “Alguém me viu no aeroporto, cheio de instrumentos. Quando chego lá, recebo um telefone da Ilza, minha patroa na época, perguntando se eu tinha levado 12 leitõezinhos”, relembra. OGlobo, equivocadamente, havia publicado que Hermeto tinha sido proibido de entrar na Inglaterra com a dúzia de leitõezinhos. Ele respondeu a então mulher: “Olha, diga para eles que aqui tem porquinho bonitinho da minha cor, branquinho como eu. Não tenho nada contra, mas nunca iria trazer do Brasil, gastar um dinheiro desses se já tem porco aqui. Quer dizer, eles fazem um sensacionalismo que nem acho legal. Mas é para não esquecerem que o Hermeto é louco – eles acham que eu sou louco, né? Olha só se eu seria inteligente se me desse ao trabalho de levar porco para qualquer lugar do mundo, se em todo canto tem porco. Qual é o país que não tem porco? Nem falo isso criticando, falo porque as pessoas são inteligentes, e quem leu no jornal não acreditou. Como eu ia ter o trabalho de levar 12 porquinhos? Só que eu ri… Imagina eu fazendo isso? Mesmo que não faça, me imagino fazendo, seria engraçado mesmo chegar com um monte de porco. Aí, sim, eles iam me torrar junto, hehehe”.

De tão improvável que é, Hermeto Pascoal e sua música suscitam estórias como essa. Não duvidem nada, portanto, até porque anos antes porquinhos estiveram no estúdio com ele. O bruxo gravou um disco nos Estados Unidos em 1976, Slaves Mass, no Texas, mais precisamente. Um casal de crianças levou dois porquinhos, eram seus bichinhos de estimação.

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