Pat Metheny Unity Band, ao vivo no BMW Jazz Festival

Retirado do site: http://www.geekmusical.com.br/

Antes que as cortinas da terceira edição do BMW Jazz Festival se abrissem, o curador do festival Zuza Homem de Mello subiu ao palco para deixar sua mensagem. Segundo ele, ao contrário de outros públicos, o de jazz costuma olhar com mais carinho para os sidemen, em vez de dispensar todas as suas atenções para o líder da banda. Escorado nesse argumento, encerrou seu discurso inaugural com um recado: “prestem muita atenção aos coadjuvantes de hoje, pois serão os astros de amanhã.”

Pat Metheny e sua Unity Band abriram a primeira das três noites do festival com músicas de seu autointitulado álbum, lançado em 2012. “Roofdogs” tem a marca de Pat Metheny, com o timbre característico de sua guitarra Roland, que emula um sintetizador. Depois veio “This Belong To You”. Foi aí que os coadjuvantes começam a aparecer. Chris Potter (sax), Ben Williams (baixo) e Antonio Sanchez (bateria) vêm de uma escola mais tradicional de jazz e dão outra dinâmica ao grupo — bem diferente do que acontece no Pat Metheny Group, onde o guitarrista se sobressai ao lado do tecladista Lyle Mays.

Essa vocação mais jazzística da Unity Band fez com que essa “unidade” ficasse evidente nos três duos feitos no meio do show. Primeiro foi guitarra e baixo, depois guitarra e bateria, e finalizando com guitarra e sax. Três sessões distintas com os mais variados improvisos. Hermético para alguns, essencial para outros. Para equilibrar o repertório, foi reservado espaço no set para a clássica “Bright Size Life”, faixa-título de seu primeiro álbum solo de 1976, e para a sua versão de “Insensatez”, presença quase que compulsória em seus shows no Brasil. Já no bis, a indefectível “Are You Going With Me”, do álbum Offramp (1982), do Pat Metheny Group.

Pat Metheny tem uma longa relação com o Brasil. Fã de nossa música desde seus verdes anos, teve Naná Vasconcelos como convidada em três de seus discos, tocou ao vivo com Milton Nascimento, Toninho Horta e Tom Jobim e morou aqui quando era casado com Sônia Braga, entre o final dos anos 80 e começo dos 90. Com esse histórico, era natural que ele fosse além do protocolar “obrigado”, mas preferiu não arriscar muito. “Eu não lembro muito bem”, justificou, com português deteriorado pelo tempo. De volta à sua língua nativa, apresentou os músicos da Unity Band e os enalteceu como “os melhores músicos deste planeta”. Se Zuza Homem de Mello estiver certo, o público já elegeu seu futuro astro: o baterista Antonio Sanchez, que cativou a todos com seu estilo fluente e vigoroso.
Durante todo o show esperei por alguma música de Imaginary Day, meu disco favorito do Pat Metheny Group. Não tive sucesso nessa empreitada, mas recordo dois momentos que, para mim, se tornaram os dois grandes destaques da noite. Em primeiro lugar, a parte introdutória do show, num prelúdio de “Come And See”, onde Metheny tira sons sublimes de sua 42-string Pikasso guitar, uma espécie de violão+harpa+cítara com quatro braços e os mais inimagináveis timbres. Aquilo é música da divindade. E em segundo lugar, quando ele apresentou o seu Orchestrion Project, onde os músicos acionavam pedais que reproduziam o som do quarteto em versão orquestral numa parafernália montada ao fundo do palco (veja na foto abaixo). Uma massa sonora de volume comparável ao de uma orquestra sinfônica.
Pat Metheny só consegue ser ele mesmo quando comete essas extravagâncias. É isso que faz seu show sempre surpreendente e interessante. Quem mais poderia inventar uma engenhoca dessas? Há um quê de Doctor Emmett Brown nesse sujeito, não só pela juba de leão, mas também por essa inquietação de cientista louco. Quem foi ao HSBC Brasil não viu apenas uma grande banda de jazz, viu toda uma concepção musical de um iconoclasta da guitarra (e da música). Parabéns à organização do festival por trazer esta e outras boas atrações ao Brasil, como Brad Mehldau e Esperanza Spalding, a preços acessíveis — remando contra essa maré de preços extorsivos causada pela lei da meia-entrada. Que venham novas edições.

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