A crítica especializada e Tom Zé

“Não há ninguém como Tom Zé”.
The New York Times – Ben Ratliff

“Músicas de inteligência assimétrica, que desafiam tranqüilamente as regras … do pop brasileiro, que dizem que [a música] deve ser apenas agradável. …melodias… equivalentes as de seus melhores contemporâneos…e também construções musicais de ângulos salientes… versos curtos … padrão minimalista e também sinuosidade do samba e ritmos carnavalescos. Jogos de palavras, associações surpreendentes, leveza maior que a de alguns de seus pares americanos, como Frank Zappa.” Jon Pareles – The New York Times

…na música popular brasileira, ele é o que há de mais próximo de um matemático-roqueiro.
Jon Pareles – New York Times

… [Jogos de Armar – Faça Você Mesmo] … o caleidoscópio de Tom Zé, explode como um fervilhante caldeirão de idéias, O MAIS CRIATIVO DO MOMENTO ATUAL DA MÚSICA BRASILEIRA.
É só ouvi-lo para entender por que seu disco The best of Tom Zé foi considerado nos Estados Unidos … um dos dez melhores da década.
Jogos de armar – Faça você mesmo é um CD de grande categoria e extremamente criativo.
…Enxurrada de idéias, soluções musicais, inteligência e maturidade artística.
Maestro Júlio Medaglia – Revista Bravo

“A música de Tom Zé é diferente de qualquer música brasileira que ouvi até hoje… Expande incessantemente os limites da canção popular, adotando formas inesperadas, que nos surpreendem e encantam, com percepção aguda dos acontecimentos. Olha a grande cidade com olhos — e o ouvidos — de poeta. Descobre beleza em regiões estranhas. [Sua música] nos dá esperança.” David Byrne

“… dois volumes do som iconoclasta de Tom Zé, o homem brasileiro demais para o Brasil.” David Byrne

“Ele mistura samba, Heavy Metal e fantasia surrealista…é delicioso … Sua música espirituosa … fez a platéia aplaudir de pé, ovacionando-o !”
Larry Birnbaum – New york newsday – ( da resenha do show no MoMA – Museu de Arte Moderna de Nova York, que não costuma fazer apresentações musicais e convidou Tom Zé em caráter excepcional).

“[Tom Zé] funde TODAS as correntes musicais… … e com tal emoção … … ele faz o que a música ainda virá a ser …” [sua forma de atuar] é o que deve ser o trabalho do artista .“
Hans Joachim Koellreutter, em depoimento no filme ‘TOM ZÉ, ou QUEM IRÁ COLOCAR DINAMITE NA CABEÇA DO SÉCULO’ (documentário de Carla Gallo)

“…um antídoto cerebral à condescendência do Primeiro Mundo. … essencialmente um ‘art rocker’ com a manha de um criador de jingles e senso rítmico de sambista. Nenhum artista pop em qualquer lugar escreveu canções tão irresistíveis, ainda que tão incomuns ”
Robert Christgau

Tom Zé é, seguramente, um dos cantores mais politizados do planeta. … Sua música não tem norma nem proibição …
Véronique Mortaigne – Le Monde

“Nunca seremos suficientemente gratos a David Byrne. Tom Zé é um gênio!”
Bernard Loupias – Le Nouvel Observateur

“L’ enfant terrible do tropicalismo brasileiro … no show para um público de conhecedores e de músicos… [mostra uma] grande fusão musical que resulta num incomum elitismo popular .”
Véronique Mortaigne – Le Monde

“E se Tom Zé, maravilhoso paradoxo brasileiro, for simplesmente um dos maiores artistas atuais… patrimônio da humanidade, a ser preservado e ouvido?”
Philippe Cornet – Le Vif / L’Express

“Música tradicional e rítmica de ligação vanguardista (Schonberg e ‘Bartók)”
Peter Figlestahler – Alemanha / Suíça

“É um poeta, um trovador – troubadour – medieval, de cantigas de escárnio e maldizer”
Augusto de Campos

“O Tom Zé , para mim, soa Brasil”.
Simon Schama – Historiador e Escritor

Estados Unidos, listas de 2006: “Estudando o Pagode”, de Tom Zé, em 3o. lugar entre os discos estrangeiros da Rolling Stone e entre os primeiros entre todos os cds lançados no ano, segundo NYTimes, Village Voice, etc…

“Danç-Êh-Sá” e o show do disco estão entre os dez melhores do ano, eleitos pelos críticos do jornal “O Estado de São Paulo”.

Aos 70 anos, o cantor e compositor baiano Tom Zé continua surpreendendo, como provou no recenter “Danç-Êh-Sá”, disco que explora os limites entre a música popular e a de vanguarda, e também no documentário “Fabricando Tom Zé”
Jurados: Artur Xexéo, Arnaldo Bloch, Arthur Dapieve (O Globo) e O Rappa (músicos)
(Os outros dois destaques são o maestro Roberto Minczuk, regente da Orquestra Sinfônica Brasileira e a gravadora Biscoito Fino. )
JORNAL O GLOBO, Rio, 8/12/06

Tom Zé no Rock in Rio: “… O performático Tom Zé guardou para a noite da última sexta-feira talvez a melhor apresentação da Tenda Brasil. No palco, o baiano parece imbatível. ”
Lúcio Ribeiro – Jornal do Brasil.

“Impossível não se comover com esse disco (Jogos de Armar). Afinal de contas, nós não somos burros.”
Jotabê Medeiros – O Estado de S.Paulo

“… (Jogos de Armar) é um sério candidato à … lista de melhores (discos) do ano.”
Kiko Ferreira – O Estado de Minas

“O velho bode anarquista está com a corda toda. De Irará para o mundo, ele radicaliza sua estética low-fi e amplia a farsa tecnológica que é a base de sua música. E avisa logo de cara: não toca instrumentos, mas instromenzés, coisas com as quais o ilusionista musical hipnotiza multidões.”
Jotabê Medeiros – O Estado de S.Paulo

“The Best of Tom Zé” (Luaka Bop, 1990) está entre os 10 MELHORES ÁLBUNS DA DÉCADA no mundo (“Essential Recordings os the 90’s”) da Revista Rolling Stone, e é o único brasileiro entre os 150 álbuns selecionados .

“Tom Zé tem uma coisa louca, uma criatividade surpreendente, diferente de tudo o que se faz”.
Capinam – Compositor

Tom Zé é a coisa mais nova que eu conheço, a mais inovadora.
Zélia Duncan

“Tom zé é o maior poeta vivo da MPB. É um sujeito nuclear.”
Herbert vianna – Paralamas do Sucesso

“Vê-lo no palco me deixou em estado de êxtase”.
Cacá Diegues – Cineasta

“Ele continua com a mesma verve que o fez uma das maiores cabeças da música por aqui. E isso ninguém tira dele”.
Sandra Nascimento – Estado de Minas

“Talvez embalado pelo benefício de nunca ter sucumbido à exaustão de lançamentos contínuos – às vezes ocos -, Tom Zé chega aos 62 anos em plena potência de inspiração artística.(…) A moral é que a complexidade, por ora, está de volta à MPB”
Pedro Alexandre Sanches – Folha de São Paulo

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Podcast – Jazz, Samba, Choro, Frevo, Forró…Os diversos rítmos e sonoridades que embalam a Música Instrumental Brasileira !!!

Texto retirado do site: http://farofamoderna.blogspot.com.br/ .Para ouvir o podcast acesse o site.

E Viva a Copa do Mundo no Brasil em 2014 e as Olimpiadas do Rio de Janeiro em 2016! E gringos de várias partes do mundo terão a oportunidade de conhecer um pouco da diversidade cultural e do calor da nossa terra Brasil! E quando se trata de música, bota diversidade nisso! Vias de regra, todo artista leva consigo um tanto daquilo que sua cultura nativa lhe ensinou. Mas eu, particularmente, sempre defendo que, acima da diversidade cultural do nosso país — ou além dela; ou juntando-se a ela –, nossos músicos e cantores deveriam expor mais suas personalidades da forma mais evidente, original e contemporânea possível — afim de renovemos nossa cultura e inovemos nossas formas de expressão, afim de que muitos dos nossos artistas entrem no mapa da música criativa, afim que não fiquemos na letargia do passadismo, no comodismo, ou dormindo sobre o divã da nossa miscelânea regional. Pois bem, em meados do ano 2009, no entanto, eu produzi um podcast para o Portal MTV que mostrava um pouco esta miscelânea, mas sem ressaltar tanto os aspecto da contemporaneidade — ou seja, eu quis fazer um programa mais documental do que crítico, tentando evidenciar mais a diversidade rítmica e harmônica do que o aspecto temporal inerente à cada músico. Isso porque a música instrumental brasileira é, definitivamente, um dos maiores exemplo de diversidade cultural em relação as músicas de outros países e acho que isso tem de ser mostrado a todos àqueles que não conhecem a panorâmica dessa diversidade: isto é, trata-se de um mix de tantos ritmos e sonoridades que eu simplesmente não gosto de lhe empregar nenhum rótulo mercadológico e nem mesmo estético — apesar de que o termo “brasilidade” me é totalmente adequado para situar uma determinada produção musical que contenha uma requintada identidade com as sonoridades do nosso Brasil. Ou seja, muitos pesquisadores e apreciadores rotulam nossa música instrumental como “Jazz Brasileiro”, mas, na verdade, a influência do jazz é apenas mais um elemento dentre tantos outros como os ritmos e harmonias do frevo, maracatu, samba, choro, forró e etc, rítmos puramentes nacionais — muitos deles advindos de culturas e folclores regionais. Então, quero dizer que a denominação “jazz brasileiro” chega a ser até mesmo limitante para nossa música instrumental. O que toca atualmente Hamilton de Holanda: “jazz brasileiro” ou “música instrumental brasileira”? Talvez, para o próprio artista, o rótulo a ser empregado seja irrelevante, mas eu prefiro pensar no termo “música instrumental brasileira” de forma genérica e não limitante.
Sim! Por um momento, lá nos anos 60, o jazz se juntou ao samba e à bossa nova carioca e foi a principal influência para nossos músicos tupiniquins: surgia, então, o Samba Jazz embalado por improvisos de bambas como o saxofonista americano Stan Getz e o saxofonista brasileiro JT Meireles. Mas, nas décadas posteriores, surgiu uma galera que mudou definitivamente os rumos do instrumental tupiniquim: falo de músicos como os nordestinos Sivuca, Moacir Santos e Hermeto Pascoal, o carioca Egberto Gismonti e o catarinense Airto Moreira, os principais artífices da nossa Música Instrumental Brasileira Contemporânea. O que esses músicos fizeram, no final da década de 60 para o início da década de 70, foi pegar as sonoridades e ritmos de outras regiões do Brasil e misturar à música sudestina do eixo Rio-São Paulo, que tinha sua influência no choro, samba e jazz, sem esquecer de incluir, também, contemporaneidades de outras músicas internacionais: foi assim que eles começaram a misturar forró com choro e jazz, frevo com jazz e samba…e aí a coisa virou uma verdadeira farofa moderna.

Pois bem, neste programa de podcast eu acrescento vinhetas tiradas do disco I’m Fine, How Are You, gravado por Airto Moreita em 1977. No caso do percussionista Airto Moreira, ele mudou-se para os EUA com sua esposa Flora Purim no início dos anos 70, e, lá, deixou-se influenciar pelo jazz fusion (espécie de “jazz elétrico”, mesclado de funk e rock, fundado pelo trompetista Miles Davis, com o qual ele mesmo colaborou, ajudando-o a disseminar a estética em festivais da Europa e Brasil). Posteriormente, Airto incluiu em sem amálgama muitas outras sonoridades étnicas, mesclando os ritmos e as sonoridades brasileiras à suas novas descobertas fusionistas. O programa começa, então, com a faixa The Happy People de Airto, que está no disco I’m Fine, How Are You? (1977). Seu sucesso no meio jazzístico americano fez com que a famosa revista Downbeat — considerada a Bíblia do Jazz — encaixasse a categoria “Percussionista do Ano” em seus rankings e premiações — ranking no qual ele esteve no topo por quase duas décadas na categoria percussionista do ano. Hermeto Pascoal, por sua vez, já vinha fazendo muitas misturas aqui em solo tupiniquim. Mas após ter visitado Airto nos EUA — e também ter tocado com Miles Davis, que admirava a figura e inteligência do “bruxo” –, Hermeto acrescentou à suas misturas mais sonoridades fusionistas, criando misturas e improvisos que só ele foi capaz de imaginar e fazer acontecer. Além das misturas dos ritmos e sonoridades do jazz, choro, samba, forró, o “bruxo dos sons” acrescentou o som de animais, panelas, brinquedos, vozes e sons corporais, sons de instrumentos eletrônicos, fazendo um mix que tinha certa influência do fusion americano, mas recheado de tantas sonoridades que Hermeto passou a chamar sua estética de Música Universal. Com sua filosofia de Música Universal, Hermeto mudou drasticamente o rosto da nossa Música Instrumental Brasileira.

Neste podcast, além de Airto Moreira e Hermeto Pascoal, vocês ouvirão músicos das gerações mais novas, ou seja, dos anos 90 e 2000: com o violinista francês Nicolas Krassik, ouviremos a faixa Forró de Cava do disco Na Lapa; com o quinteto do bandolinista Hamilton de Holanda (músico do qual já falei aqui no blog) ouviremos a faixa Ano Bom do disco Brasilianos Vol 2; com os flautistas paulistanos Lea Freire e Teco Cardoso ouviremos Sorriso do Gordo do disco Quinteto (1999); com o grande baterista Alex Buck ouviremos Pai de Som do disco Luz da Lua (2006); com o veterano trombonista Bocato ouviremos Lausane do disco Acid Samba (2001); e, por fim, termino o programa com a performance fantástica da Spok Frevo Orquestra, uma espécie de big band nordestina, uma das maiores orquestras brasileiras em atividade. Cada um desses músicos colaborou e colabora para reforçar e renovar estilos — bem como as misturas de estilos — em cenários regionais como o sudeste e o nordeste e, consequentemente, o cenário nacional.

DE GRAÇA – MARCELO JENECI

Figura onipresente na música popular brasileira contemporânea, Marcelo Jeneci chega ao seu segundo disco firmando de vez o seu pé nesse cenário, e com a difícil responsabilidade de não deixar a peteca cair após o bem sucedido disco de estreia “Feito Pra Acabar” (2010).

Mostrando desenvoltura artística, o disco passa por momentos dos mais diversificados, que inclui música regional, pop/Rock, psicodelia e MPB mais purista. A faixa de abertura mostra um pouco de cada coisa. “Alento” exibe uma incrível absorção de ritmos e nuances, resultado da fusão alternativa entre texturas variadas, resultando em um impacto imediato já no início do disco.

“De Graça”, faixa seguinte, já descamba para o popular, com bases que lembram a música paraense, moda repentina que tem sido importada para rádios e TVs de todo o país, e que aqui é responsável por destacar a frase que delimita a obra “…o melhor da vida é de graça…”.

A simplicidade e a valorização do cotidiano, presente ao longo de boa parte do disco é uma das principais características do artista. Faixas como “Temporal” e “O Melhor da Vida”, mostram a incrível habilidade que o artista possui em produzir melodias deliciosas, que te fazem sorrir só de ouvi-las, e lembra o quanto é bom estar vivo.

Além dos backing vocals ao longo do disco, a cantora paulista Laura Lavieri tem importante participação em todo o disco, além de fazer vocal principal nas faixas “Tudo Bem, Tanto Faz” – que ganha lindo arranjo de orquestra por Eumir Deodato -, e “Pra Gente se Desprender”, belíssima balada onde também se destaca a orquestra de Deodato.

Talvez a maior inovação desse novo álbum é o fato de ele possuir um flerte maior com o Pop/Rock, se compararmos com o lançamento anterior. Um desses casos é a canção “A Vida É Bélica”- uma das melhores músicas que ouvi em 2013 -, que traz psicodelia, força, e tons épicos, e não deixa mais qualquer dúvida sobre o talento desse artista. Curiosamente, “Nada a Ver” também é momento que beira ao Pop/Rock, e chega a lembrar o som do Skank feito na década passada.

Com outros destaques como “Só Eu Sou Eu” e “Julieta”, canções que caracterizam bastante o som do artista, o álbum consegue ser tão competente quanto o anterior, e é daqueles discos difíceis de parar de ouvir.

Produzido por Kassin, “De Graça” foi lançado pelo selo Slap da Som Livre e foi escolha do programa Natura Musical. Fazendo jus ao seu nome, “De Graça” pode ser ouvido na íntegra a partir do site oficial do artista.

Resenha publicada em 15/12/2013

Entrevista com o crítico musical Carlos Calado

http://farofamoderna.blogspot.com.br/

Entrevista com o crítico musical Carlos Calado: Música Popular Brasileira, Jazz, Black Music e um desnude da mídia impressa.
Written By Vagner Pitta

Queridos amigos e visitantes do blog Farofa Moderna, até a dois anos atrás eu nunca poderia imaginar que este espaço não-remunerativo pudesse se apresentar como um canal alternativo sinônimo de informação para apreciadores de jazz, música instrumental brasileira e outros tipos de música de qualidade — tampouco imaginei que, através dele, um dia receberia a possibilidade de entrevistar grandes músicos e profissionais da mídia, nacionais e estrangeiros. Para quem quiser ler nossas entrevistas, basta acessar a página ENTREVISTAS no topo do blog, onde vocês constatarão que já realizamos entrevistas com grandes músicos e jornalistas, tais como o trompetista Christian Scott, o contrabaixista Christian McBride, a cantora Ithamara Koorax, o saxofonista Ken Vandermark e o jornalista Roberto Muggiati e o guitarrista Michel Leme. E agora, trago-vos uma entrevista com o jornalista-crítico-musical Carlos Calado neste mês de setembro.

Tem me sido muito gratificante ter um espaço como este blog, onde, além de constatar uma média de 400 a 500 visitantes diários de vários países, tenho o prazer de constatar, também, que meus textos são lidos por verdadeiros apreciadores (iniciantes e veteranos) e diletantes músicos e jornalistas brasileiros — com alguns dos quais, diga-se de passagem, mantenho contato e/ou amizade com ótimos diálogos e aprendizados –, pessoas que encaram a música como uma arte necessária para a vida e, mais ainda, como uma arte suprema dentro do rol das sete artes, embora o pobrismo do nosso cenário brasileiro, encabeçado pela ostentação comercial da grande mídia, pouco nos ajude a elevar essa arte ao patamar de sofisticação que ela merece, o que também nos rebaixa em relação a outros países onde a arte, como um todo, é uma das prioridades. Um reclame constante em meus ensaios neste blog é, justamente, contra o pobrismo cultural encrustado na nossa mídia, algo que, em termos de música, chega a beirar ao preconceito e à segregação — ou seja, se já tivemos uma ditadura política, agora parece ser o momento de questionarmos se não vivemos uma ditadura midiática onde discursos de defesa à democracia e liberdade de imprensa são apenas um disfarce por cima da manipulação: como a maioria da população é desprovida de educação e cultura, o contingente de pessoas que são capazes de reclamar por uma mídia mais sofisticada em termos culturais e artísticos é muito pequeno, o que faz com que essa mídia tenha poderes para escantear verdadeiros artistas e nos enfiar, goela abaixo, aquilo que ela dita como modinha e espetáculo. Sim, claro, o governo tem sua parcela de culpa: se ele investisse mais em educação e no incentivo à cultura — algo que ele faz, mas não o faz suficientemente, além de ser combalido por corruptos que enriquecem às custas desse investimento –, teríamos um número maior de verdadeiros artistas sendo valorizados e um número maior de pessoas reclamando por um cenário artístico mais rico e sofisticado. Mas convenhamos que, se por um lado devem existir políticas públicas de incentivo à cultura, nunca foi papel do governo financiar ou promover a carreira de nenhum artista — as vezes que o governo o fez foi, tendenciosamente, para promover a si mesmo. O artista tem que se valer do seu próprio talento, esforço e trânsito no circuito artístico afim de que, em algum momento da sua carreira, ele venha a ser reconhecido: e seria a mídia (jornais, canais de TV e rádio, mercado editorial e, agora, a internet), enfim, a grande responsável por mostrar ao público as novidades que os novos e verdadeiros artistas estão empreendendo; ela é, ou deveria ser, a grande responsável por reconhecer valor aos verdadeiros artistas e apresentar ao público um cenário diversificado onde a sofisticação da arte fosse o termo principal — é aí onde entra o papel dos jornalistas, dos críticos, dos editores e, em certa medida, da mídia independente via blogueiros mais sérios.

Foi pensando em tudo isso que me deparei com a necessidade de, eventualmente, realizar uma entrevista com um grande profissional que tivesse a liberdade de nos testemunhar todo o descaso em relação à música de qualidade — principalmente em relação ao jazz, à MPB e à música instrumental brasileira — que ocorre nos bastidores da mídia brasileira. E para minha surpresa, o cara que encontrei para realizar uma entrevista deste porte foi ninguém menos que o jornalista Carlos Calado, um dos grandes pioneiros da crítica musical relacionada ao jazz e à MPB nas últimas décadas: em recentes diálogos, tivemos o prazer de compartilhar idéias, satisfações e indignações — e nesses diálogos, o meu maior prazer foi aprender de alguém que é veterano na arte de escrever sobre música! Nesta entrevista, que está num formato mais de um bate papo do que formalmente uma entrevista metódica, Carlos Calado discorre sobre o que acredita e sobre o que já presenciou em três diferentes campos da música: MPB (música popular brasileira), jazz e black music, temas que ele aborda com propriedade tanto em grandes holofotes midiáticos, como os jornais Folha de São Paulo e Valor Econômico, como em seu blog pessoal chamado Música de Alma Negra (um dos blogs que indico aqui em nossa lista de sites); nesta entrevista, enfim, ele fala da sua própria visão crítica, das suas experiências como correspondente cultural em grandes festivais, fala dos descasos que presencia nos bastidores da mídia e do mercado editorial em relação à música de qualidade e da sua esperança de que um dia esse cenário mude completamente para melhor. E ainda no final há uma breve enquete onde o jornalista lista suas preferencias musicais. Leiam!

1 – Como foi seu envolvimento com o jazz e quais músicos – ou situações – mais te impactaram durante essas três décadas em que vem atuando em shows, entrevistas, festivais e curadorias?

Miles Davis, 1974
Carlos Calado – Na adolescência, eu costumava passar as tardes com um grupo de amigos, escutando música. Ouvíamos muito rock, pop, soul, funk, blues e música brasileira. Descobri o jazz um pouco mais tarde, já por volta dos 16 ou 17 anos. Na década de 70, o crítico do “Jornal da Tarde”, Armando Aflalo, produzia um programa muito legal para a rádio Eldorado, o “Noites de Jazz”, do qual virei fã. Lembro-me de ter acompanhado uma série que o Aflalo fez sobre a história do jazz, recheada de gravações importantes e relativamente raras, que abriu as portas de um novo universo musical para mim.

Mas a experiência que me converteu de vez ao jazz foi o show do Miles Davis, em 1974, aqui em São Paulo. Ele estava no auge daquela fase eletrificada e meio free. O volume de som era tão alto que assustou, ou até irritou, os fãs mais velhos. Vi muitos quarentões e cinquentões saindo no meio do concerto. Já a garotada ficou tão enlouquecida que começou a subir nas cadeiras de veludo do Teatro Municipal. Graças àquela noite, os shows de música popular ficaram proibidos no Municipal paulistano durante anos. No dia seguinte ao show, eu já estava vasculhando as lojas de discos à procura de tudo que pudesse encontrar do Miles e de seus parceiros. Assim fui conhecendo John Coltrane, Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter, Keith Jarrett, Chick Corea, Dave Holland e muitos outros.

Não é fácil destacar dois ou três shows e festivais que me impactaram, nesses anos todos. Claro que o primeiro festival de jazz a gente nunca esquece: no meu caso foi o pioneiro Festival Internacional de Jazz de São Paulo, no Palácio de Convenções do Anhembi, em 1978, realizado em parceria com o suíço Montreux Jazz Festival. Foi uma festa. Durante oito dias, numa época em que os shows de artistas estrangeiros ainda era bem raros por aqui, tomamos um banho de jazz, blues e música instrumental brasileira, com Dizzy Gillespie, Al Jarreau, Larry Coryell & Philip Catherine, Ahmad Jamal, Stan Getz, Chick Corea, John McLaughlin, Hermeto Pascoal, Victor Assis Brasil, Luiz Eça, Paulo Moura, Nelson Ayres, Etta James, Taj Mahal, até o argentino Astor Piazzolla, entre outros. Aliás, esse festival foi transmitido ao vivo, pela TV Cultura, que ainda possui trechos preciosos dessa cobertura em seu arquivo.

Eu também destacaria o próprio Montreux Jazz Festival, que tive o privilégio de cobrir seis vezes, durante a década de 1990, para a “Folha de S. Paulo”. A cobertura era uma verdadeira maratona, com 16 dias de festival. Os shows principais começavam por volta das 19h e avançavam pelas madrugada, sem falar nas entrevistas e os shows ao ar livre, que aconteciam à tarde. Ali puder ver e ouvir quase tudo de bom que passou pelas cenas do jazz e da black music naquela década: de Quincy Jones a B.B. King, de Elvin Jones a Al Green, de Charlie Haden a Guru, de McCoy Tyner ao Incognito, de Cassandra Wilson a Tania Maria. Pena que já ao final da década de 90, a qualidade da programação tenha começado a ficar comprometida, acompanhando a decadência do mercado fonográfico.

2 – Quais as diferenças entre ser um jornalista especializado em música nas décadas passadas e ser um jornalista especializado em música no início do século 21? Se existe um cenário pujante de música instrumental hoje em dia, com inúmeros shows e festivais de jazz e de música instrumental brasileira acontecendo mês a mês, por que os jornais brasileiros desdenham esta arte musical? Aliás, sem desconsiderar seu diletante trabalho, percebo que a maioria dos grandes jornais abordam até mais a música erudita clássica – um destaque para a programação da OSESP com a orquestra tocando Beethoven pela enésima vez, só pra dar um exemplo ilustrativo –, do que o jazz contemporâneo e a nossa rica música instrumental. É tão difícil assim, pra um jornal dedicar um espaço regular para noticiar as novidades que os grandes músicos e compositores brasileiros e estrangeiros estão empreendendo?

CC – Ingressei no jornalismo musical em 1985, como colaborador da ótima revista “SomTrês”, que era editada por Mauricio Kubrusly e Otavio Rodrigues. Um ano depois comecei a escrever para a “Folha de S. Paulo”, como crítico de música. A internet ainda não era uma ferramenta com a qual podíamos contar, naquela época, portanto o acesso às novidades do jazz era bem mais difícil. Muitos discos nem chegavam ao mercado brasileiro, mesmo em edições importadas. E quando eram lançados aqui havia um considerável atraso. Por outro lado, o rádio da época ainda era melhor e mais eclético do que o de hoje. Programas especializados supriam parte da curiosidade de quem não se contentava em ouvir apenas as obviedades das paradas de sucessos.

Você flagrou bem um paradoxo que existe na cobertura feita pela imprensa de nosso país. Nos últimos anos, o mercado musical brasileiro tem oferecido um número muito maior de shows e festivais do que havia na década de 80, mas o espaço para a música nos jornais e revistas, especialmente o espaço para o jazz e a música instrumental brasileira, é bem menor do que já foi. Quer um exemplo? Em 1989, eu era repórter da “Ilustrada”, o caderno cultural da “Folha”. No dia da estreia da quinta edição do Free Jazz Festival, que trouxe Cecil Taylor, Max Roach, Horace Silver, George Benson e John Lee Hooker, entre outras atrações, publicamos um caderno especial de oito páginas sobre o evento, com reportagens, análises, gráficos explicativos e resenhas de livros e discos de jazz que estavam sendo lançados. Ou melhor, dedicamos a esse evento musical praticamente o mesmo espaço que os cadernos culturais brasileiros dedicam hoje a todas as áreas da cultura e do entretenimento, numa de suas edições diárias.

Não posso falar pelos editores dos cadernos culturais de hoje, mas é compreensível que, com a redução da circulação dos jornais, em grande parte provocada pela expansão da internet, o espaço editorial também diminuiu. Por outro lado, acho que desde a década de 90 houve um rebaixamento do gosto musical em nossa imprensa. Seja por falta de cultura e formação musical de muitos jornalistas que assumiram postos nas redações, ou até pela ânsia de tentar conquistar os leitores mais jovens, o fato é que o rock e o pop tornaram-se quase hegemônicos na imprensa brasileira – algo que limitou e empobreceu bastante a cobertura musical, nos últimos anos. Aliás, tenho vontade de rir quando vejo um colega se apresentar como “crítico de rock alternativo” ou “jornalista de cultura pop”. Acho isso um índice de miséria cultural, na imprensa da última década.

Outro aspecto lamentável: já vi colegas torcerem o nariz, revelando preconceito e ignorância, ao ouvirem uma sugestão de pauta que envolvia música instrumental brasileira. Ironicamente, duas décadas atrás, cheguei a cobrir, em Nova York, eventos como um grande concerto com artistas do selo instrumental Som da Gente. Ou o lançamento, pela Warner norte-americana, de um álbum do violonista André Geraissati. É incrível como, alguns anos depois, essa vertente da música brasileira, que é tão admirada internacionalmente, passou a ser esnobada nas redações dos jornais e revistas de nosso país.

3 – Falando especificamente do papel do jornalista enquanto crítico, vê-se que nos EUA e na Europa ainda há aquele tipo de crítico que realiza uma faceta de não apenas levar as várias formas de arte ao conhecimento do público, mas, de fato, realizam um trabalho de criticá-las qualitativamente na intenção de que as colunas sejam um espaço representativo do bom gosto, requinte, primor artístico. No Brasil, principalmente no que concerne à música, parece que esse tipo de crítica desapareceu – ou, para ser o mais otimista possível, ficou restrita em um ou dois jornalistas que realmente se comportam como críticos. Na sua visão, qual é o papel do crítico diante deste momento de globalização, cultura pop e mercado fonográfico refém da internet e tecnologia digital? Um crítico musical precisa entender de música para ser bom no que faz?

CC – Concordo com você. Diferentemente do que ainda se observa em grandes jornais norte-americanos e europeus, quase tudo indica que a crítica musical é uma modalidade jornalística ameaçada de extinção no Brasil. Como é possível analisar com a devida atenção um disco, um show, ou mesmo um filme, em um espaço tão reduzido como o que é dedicado hoje à crítica em nossos jornais? Não é à toa que eles aderiram ao clichê da “avaliação”. Ou seja, a música passou a se avaliada como se faz com um hotel ou um restaurante. Abandonar a discussão de ideias, substituindo a análise de uma obra de arte por uma mera “cotação”, como bom ou ruim, pode levar, rapidamente, à extinção do exercício da crítica.

Sempre que me perguntam sobre o papel do crítico, me lembro de um antigo texto do poeta e crítico norte-americano T.S. Eliot. Segundo ele, o crítico que desempenha sua função com seriedade deve evitar os juízos de valor, jamais deve decretar que uma obra é boa ou ruim. Ou seja, precisa evitar os preconceitos estéticos. Se o crítico respeita a inteligência de seu leitor, deve simplesmente analisar a obra, deixando que o leitor faça o julgamento de acordo com suas próprias referências e gosto pessoal. Acho que essa atitude é a mais correta.

Muitas das supostas críticas que de vez em quando aparecem em nossos jornais e revistas não passam de meras expressões do gosto pessoal do jornalista, não são críticas, realmente. Aliás, tornou-se comum dedicar mais espaço à descrição das roupas, dos cabelos e coreografias dos cantores dos que à música, propriamente. Acho fundamental que o crítico conheça a fundo não só a história do gênero sobre o qual escreve, mas que também tenha dedicado pelo menos alguns anos à audição das obras e gravações mais importantes desse gênero. Não digo que para exercer essa função o jornalista precise, necessariamente, ter aprendido a tocar um instrumento. Porém, é fundamental possuir noções gerais de história da música, além de muitas horas de audição mais atenta.

4- Vamos falar do mercado editorial em si. Através da sua vivência e sua análise, qual o futuro da mídia impressa diante do fato de que a inclusão digital está levando as pessoas a comprar menos jornais e revistas? Em que a internet ajuda e no que ela atrapalha?

CC – Sinceramente, ainda encaro essa questão com certa perplexidade. Não arrisco previsões. Só tenho a vaga impressão de que a imprensa escrita não vai acabar tão cedo como anunciaram os mais apressados. Quanto à nossa área, especificamente, penso que a internet ainda precisa se profissionalizar. A única experiência gratificante que tive até hoje, na web, além do meu blog, foi o período (de 2000 a 2001) em que trabalhei como repórter especial do site CliqueMusic, com uma ótima equipe de jornalistas conduzida pelo grande Tárik de Souza, um dos meus mestres na crítica musical e editor de meus livros sobre os Mutantes e a Tropicália. Pena que os investidores desse site imaginaram que o retorno seria rápido. Só bancaram essa equipe durante um ano.

Para qualquer jornalista especializado em música, a internet é uma preciosa ferramenta de trabalho e pesquisa. Porém, para cada site ou blog como o Farofa Moderna, que é feito com seriedade e paixão pela música, há centenas de outros criados por oportunistas que simplesmente copiam os textos dos outros, com a maior cara de pau. Sem falar no verdadeiro pântano de bobagens, narcisismo e exibições de ódio que se vê hoje em qualquer discussão aberta na internet. Será que isso vai mudar com o tempo?

5 – Você escreveu um livro, “Tropicália: A História de uma Revolução Musical”, onde analisa o movimento da Tropicália. Podemos dizer que o tropicalismo foi uma ruptura com a geração anterior, um protesto em relação à elite de artistas boêmios da bossa nova e seus limites, que basicamente se situavam entre jazz e samba? Pelo seu horizonte de pesquisa, o que o tropicalismo representa dentro da nossa história?

CC – Sim, a Tropicália criticou a acomodação da bossa nova e, mais ainda, rejeitou a hegemonia das canções politizadas na cena da música popular brasileira, em meados dos anos 1960. De certo modo, o Tropicalismo também representou a afirmação de uma nova geração de compositores, intérpretes e arranjadores (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Mutantes, Gal Costa, Torquato Neto, Capinan, Rogério Duprat). Influenciados pela música pop e pela música de vanguarda contemporânea, esses artistas decidiram enfrentar o nacionalismo exacerbado e a xenofobia que haviam se instalado no ambiente cultural do país, naquele momento.

Para um jovem de hoje, acostumado à diversidade musical que se ouve por aí, deve ser difícil de acreditar que, por exemplo, um grupo de músicos e intelectuais tenha participado de uma manifestação pública, pelas ruas do centro São Paulo, em 1967, contra a “invasão” da música norte-americana. Esse foi apenas um dos absurdos da maniqueísta conjuntura cultural e política daquela época, que, aliás, também resultou na prisão e nos anos de exílio impostos pela ditadura militar a Caetano e Gil, que jamais foram militantes, nem tinham ligações com partidos ou organizações políticas.

Diferentemente da bossa nova, que introduziu uma nova e moderna forma de interpretar o samba, a Tropicália resgatou gêneros musicais, como o baião, a marcha ou o bolero, que foram desprezados durante a hegemonia da bossa e das canções de protesto. Essencial também foi a aproximação do Tropicalismo com a música pop e o rock, que naquele momento eram índices contemporâneos de modernidade. Na verdade, a intervenção dos tropicalistas teve um caráter bastante crítico, antes de tudo. A Tropicália não pretendia implantar uma nova forma musical, como fizeram os bossa-novistas, mas sim uma nova atitude, uma maneira mais democrática de encarar a diversidade da música brasileira.

6 – Sabemos que, do final dos anos 60 a meados dos anos 80, tivemos dois grandes movimentos musicais: num âmbito nacional surgiu a Tropicália e, aqui em São Paulo – num circuito mais local e alternativo –, surgiu a Vanguarda Paulista, dois movimentos muito inovadores para a música popular brasileira no âmbito da canção. E nas últimas décadas? O que, de fato, aconteceu de novo na MPB nos anos 90 e 2000? Por que temos aquela impressão de que os novos cantores e cantoras já surgem imitando fórmulas de outros cantores que conseguiram sucesso justamente por terem sido originais? É só uma impressão pelo fato da mídia não mostrar que existe, sim, cantores criativos, ou estamos diante de outro fato no qual constata-se que a MPB realmente perdeu seu tino criativo?

Chico Science
CC – Se você se refere a movimentos ou tendências musicais que surgiram posteriormente à Tropicália, eu destacaria o também inovador Mangue Beat. Após os anos 80, marcados em nosso país pela hegemonia do rock nacional, Chico Science, o líder da banda Nação Zumbi, e outros músicos e bandas de Recife começaram a misturar ritmos regionais, como o maracatu, o pastoril, a ciranda e a embolada, com vertentes do pop contemporâneo, como o hip-hop, o funk e o hardcore. Aliás, Science, que inicialmente foi uma espécie de porta-voz desse movimento surgido em Pernambuco, admitiu ter recebido alguma influência dos tropicalistas. Chegou até a gravar com Gilberto Gil.

Concordo com você, quando aponta essa tendência constante, nas últimas décadas, de jovens cantores e compositores que já surgem reproduzindo fórmulas musicais, ou mesmo estilos e maneirismos de artistas consagrados. Aliás, uma tendência que também pode ser verificada na música pop e no rock das últimas décadas. Ainda assim, eu não diria que a música popular brasileira teria perdido seu impulso criativo. Há muitos compositores, cantores e instrumentistas criativos por aí, tentando encontrar canais para atingir um público mais amplo.

Não se pode esquecer que o mercado musical mudou bastante a partir da década de 90, quando as gravadoras e rádios passaram a investir quase que exclusivamente em modismos popularescos, como a axé music, o pagode e o sertanejo. Essa estratégia comercial fechou as portas do mercado para os artistas mais originais e consistentes. Não foi por outro motivo que a geração de Lenine, Chico César, Paulinho Moska, Zélia Duncan, Rita Ribeiro e Pedro Luis só conseguiu um espaço no mercado musical depois de muita batalha, todos já com 30 ou mais anos de idade. Hoje há muitos compositores, cantores e instrumentistas, fazendo música de ótima qualidade em várias regiões do país, que a mídia nacional simplesmente desconhece ou não mostra por preconceito. A visão musical de colegas da nossa área é tão restrita, atualmente, que parece se limitar aos artistas que eles ouvem nos bares e palcos alternativos do chamado Baixo Augusta, aqui em São Paulo.

7 – Aliás, por falar em Vanguarda Paulista, sinto que trata-se de um movimento que, apesar de estrito a São Paulo, deveria ser mais abordado e mais contextualizado, pois há muitas peculiaridades na forma como os seus artistas dominavam/ lidavam com a canção, bem como com os arranjos musicais — e a galera de hoje em dia acaba nunca sabendo que já houve um cenário muito rico em São Paulo no âmbito da MPB. Você, como residente em São Paulo, chegou a ter alguma proximidade com a Vanguarda Paulista como pesquisador, jornalista, fã ou mesmo amizade com artistas? Quais as características e peculiaridades que você presenciou e/ou enxerga nesse movimento?

CC – Na década de 70, ao cursar a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, tive a sorte de ser colega de Arrigo Barnabé, de Luiz Tatit, Helio Ziskind e Pedro Mourão (do grupo Rumo), de Mario Manga e Claus Petersen (do Premeditando o Breque). Mais tarde, ao frequentar o curso de música da Fundação das Artes de São Caetano do Sul, também tive como colegas integrantes das bandas de Arrigo e Itamar Assumpção, como o Tonho Penhasco e o Bocato. Por essas e outras acompanhei desde o início os shows dessa geração de músicos, muitos deles no lendário Lira Paulistana e no então recém-inaugurado Sesc Pompéia, quando eu ainda nem imaginava que iria me tornar crítico de música.

Alguns desses músicos que citei preferem se referir à chamada Vanguarda Paulista como uma “movimentação”, já que não chegaram a se organizar, propriamente, como um movimento musical. Aliás, o termo Vanguarda Paulista funcionou como um rótulo que identificou na mídia nacional esse coletivo de músicos e bandas, mas nem era apropriado. A rigor, só mesmo o Arrigo Barnabé utilizava elementos e referências da música de vanguarda em suas composições e arranjos. Uma característica que realmente aproximava a música do Arrigo com a música do Rumo, com a do Itamar Assumpção, com a do Premê ou mesmo com a do Língua de Trapo, era a frequente utilização da fala nas canções, em geral com boas doses de humor.

Arrigo Barnabé & Itamar Assumpção
8 – E a MPB mineira? Também é um tanto rica e peculiar. Mas parece que sua repercussão na mídia se resumiu em Milton Nascimento, enquanto outros nomes do chamado Clube da Esquina e outros cantores mineiros ficaram obscuros. Isso foi algo natural ou houve injustiças quanto ao cenário mineiro?

Nivaldo Ornelas
CC – Sim, a música de Minas Gerais é bastante rica, em vários aspectos, especialmente em termos harmônicos e rítmicos. Eu não diria que apenas a voz privilegiada e as canções de Milton Nascimento repercutiram nacionalmente. Do próprio grupo de artistas conhecido como Clube da Esquina, Lô Borges e Beto Guedes também desfrutaram de grande popularidade, em determinados períodos de suas carreiras. Por outro lado, Toninho Horta, Wagner Tiso e Nivaldo Ornelas, mineiros dessa mesma geração, continuaram produzindo música instrumental de altíssima qualidade, que não deixou de circular pelo resto do país. Aliás, outros grandes instrumentistas mineiros, como os violonistas Juarez Moreira e Celso Moreira, o pianista Celio Balona ou o incrível baterista Neném – concordo com você – mereciam ser mais prestigiados fora de Minas Gerais.

Na década passada, fui convidado durante nove anos a integrar o júri do Prêmio BDMG de Música Instrumental, em Belo Horizonte. Ali, ao lado do amigo José Domingos Raffaelli, um dos maiores conhecedores de jazz e música instrumental do nosso país, eu pude me aprofundar mais na cena musical mineira. Assim conheci e ouvi instrumentistas e compositores de grande talento, como Flávio Henrique, Chico Amaral, Cleber Alves, Weber Lopes, Enéas Xavier, André “Limão” Queiroz e Jorge Bonfá, entre outros, além de jovens bastante promissores, como Antônio Loureiro, Rafael Martini, Rodrigo Lana, Juliana Perdigão ou Felipe José. Todo ano eu voltava de Belo Horizonte surpreso com a qualidade dos novos músicos que conhecia. No fundo, quem mais perde com o fato de esses músicos ainda serem pouco conhecidos fora de Minas Gerais é o público do resto do país.

9 – Você mantém um blog – atualizado por notas e resenhas as quais você publica em jornais como Folha de São Paulo e o Valor Econômico, entre outros holofotes — que se chama Música de Alma Negra. Como bem diz o nome do site, além da MPB e do jazz você também aborda a música cantada afro-brasileira e afro-americana: samba, soul, funk, R’n’B e etc. De onde surgiu essa paixão pela “black music”? Você realiza este trabalho por predileção ou por que sente que no Brasil, terra de aberrações como o tal “funk carioca”, falta às pessoas uma melhor compreensão do espírito e da importância da música negra? O “revival” da soul music, iniciado por cantores e cantoras inglesas como Joss Stone e Amy Winehouse, ainda segue em alta?

Erykah Badu
CC – Minha paixão pela black music, tanto a norte-americana como a produzida no Brasil, vem da minha adolescência. Desde aquela época, jamais deixei de acompanhar as novidades nessa área musical. Aliás, confesso, hoje ainda ouço com o mesmo prazer de antes a soul music, o R&B e o funk de James Brown, Aretha Franklin, Marvin Gaye, Curtis Mayfield, Sly Stone, Sam Cooke, Otis Redding, Earth, Wind & Fire, Isley Brothers, Tim Maia, Banda Black Rio, Cassiano, Hyldon, Carlos Dafé, Sandra de Sá, Claudio Zoli e outros artistas dessa vertente musical. Já o meu interesse pelo rock, que também ocupou grande parte da minha adolescência, diminuiu bastante nas últimas décadas.

Sem dúvida, o blog Música de Alma Negra reflete minhas afinidades musicais. Nele eu escrevo sobre os gêneros de música que aprecio e acompanho desde a década de 70, incluindo a black music, o jazz, a salsa, o samba, o choro e outras vertentes da música brasileira. Mas também há um aspecto mais amplo, ligado à história da música negra que, apesar de conhecer teoricamente, eu só “visualizei” em 1998, ao cobrir pela primeira vez o New Orleans Jazz & Heritage Festival – o mais original de todos os festivais de música que eu já frequentei. Quando você vê todos aqueles palcos com atrações simultâneas – um para o jazz moderno, outro para o jazz tradicional; um só para o blues, outro para o gospel; um para o funk, para o soul e outras vertentes modernas da black music, outro para a música africana e suas derivações pelas Américas; um para o rock e o pop, outro para o zydeco, o cajun e outras vertentes regionais da Louisiana – você percebe que tudo aquilo forma uma entidade única. No fundo, esse festival é um grande tributo anual à herança musical da África. Ou, como preferem alguns, um tributo à Diáspora Africana.

Mas o que mais me surpreendeu, ao conhecer o festival de New Orleans, foi ver que, diferentemente do que sugerem livros e documentários, todas essas correntes da música negra estão vivas, nessa cidade com uma cena musical tão eclética e profissional. Ali você vê músicos de várias gerações, alguns bem jovens, tocando e cantando gospel, blues rural, blues moderno, rhythm & blues, soul, funk, dixieland, jazz contemporâneo, doo-wop, reggae, salsa, calypso, entre tantos estilos e gêneros musicais de raízes africanas. Ou seja, a música de ascendência negra pode ser muito mais ampla e diversificada do que sugerem as paradas de sucesso, as rádios, a MTV ou mesmo os jornais e revistas.

É por isso que eu acho o termo “revival” totalmente inapropriado para se referir a essa onda de cantores britânicos de soul. Gosto de Corinne Bailey Rae, de Joss Stone e Amy Winehouse, mas dizer que essas intérpretes reviveram a soul music é quase um insulto a grandes músicos desse gênero que continuam na ativa, como Stevie Wonder, Al Green, Aretha Franklin, Gladys Knight, Booker T, Mavis Staples, Irma Thomas, Aaron Neville, Bettye LaVette, Erykah Badu, Sade, Maxwell, entre muitos outros, que têm mantido essa música viva, nas últimas décadas. Sem esquecer a sensacional Sharon Jones, já veterana, mas só descoberta há pouco pela grande imprensa. Como é que esses cantores britânicos poderiam “reviver” a soul music se ela jamais esteve próxima da morte?

10 – Você já escreveu livros importantes sobre o jazz e a música brasileira: sobre jazz, por exemplo, você escreveu um chamado “O Jazz como espetáculo”. Você tem novos projetos em vista? Se fosse para escrever e publicar um novo ensaio, sobre qual assunto musical, sobre qual época da história da música ou sobre qual artista gostaria de dedicar um livro?

CC – “Jazz como Espetáculo” é uma versão de minha dissertação de mestrado na USP, lançada em 1990 pela Editora Perspectiva. Um ano antes publiquei “Jazz ao Vivo”, que reúne entrevistas, reportagens e críticas de shows e festivais de jazz. Como esse livro já está fora de catálogo há alguns anos, prometi à Perspectiva entregar em breve uma versão atualizada e ampliada para ser lançada, provavelmente, no próximo ano.

Um tema que mereceria um trabalho mais extenso e sobre o qual tenho dado algumas palestras é a música instrumental brasileira. Acho absurdo que essa vertente tão criativa de nossa música, que destaca instrumentistas e compositores cultuados mundialmente – como Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Naná Vasconcelos, Moacir Santos, Paulo Moura, Uakti, Pau Brasil, D’Alma, Quarteto Novo, além dessa brilhante geração mais jovem, que inclui André Mehmari, Hamilton de Holanda e Yamandu Costa, entre muitos outros – não tenha recebido ainda do mercado editorial a atenção que merece. Mas aí voltamos ao problema que já abordei anteriormente: se grande parte da imprensa especializada tem esnobado a música instrumental brasileira, por ignorância, preconceito ou falta de formação musical, não me surpreende que as editoras brasileiras não se sintam estimuladas a bancar algum projeto nessa área.

11 – Enquete:

Três músicos da história do jazz que você admira:
John Coltrane, Charles Mingus e Miles Davis

Três músicos do jazz contemporâneo que você admira:
Brad Mehldau, Jason Moran e Maria Schneider

Dois músicos da música instrumental brasileira, um precursor e outro contemporâneo, que você admira:
Moacir Santos e Hermeto Pascoal

Três artistas da “black music” (nacional e/ou internacional) que você admira:
James Brown, Aretha Franklin e Tim Maia

Dois cantores da história da MPB que você admira:
Wilson Simonal e Gal Costa

Dois cantores da MPB contemporânea que você admira:
Monica Salmaso e Luciana Souza

Duas bandas de rock, uma nacional e outra estrangeira, que você admira:
Mutantes, nas primeiras formações, e Frank Zappa, com qualquer uma de suas bandas.

Cinco álbuns de jazz (independente de época ou estilo) que te fascinam:
“Kind of Blue”, de Miles Davis
“Live at the Village Vanguard”, de John Coltrane
“Changes” (one & two), de Charles Mingus
“The Newest Sound Around”, de Jeanne Lee e Ran Blake
“Blue Skies”, de Cassandra Wilson

Cinco álbuns de música brasileira (MPB e/ou instrumental) que te fascinam:
“Coisas”, de Moacir Santos
“Zabumbê-bum-á”, de Hermeto Pascoal
“Dança das Cabeças”, de Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos
“Tropicália ou Panis et Circensis”, de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé e outros
“Elis & Tom”, de Elis Regina e Tom Jobim

A segunda grande paixão depois da música:
Cinema

30 Discos Brasileiros

O ano de 2013 chega ao fim e deixa um belo legado para a música popular brasileira. Seja na música instrumental ou nas canções letradas, seja no samba, no rap, no rock ou no pop, seja com artistas novos ou já consagrados, o fato é que a produção foi vasta.

Sem a pretensão de eleger os melhores do ano e consciente de que muita coisa boa ficou de fora, a Brasileiros apresenta uma lista de 30 trabalhos de grande qualidade produzidos ao longo deste 2013. Quase todos estão com links para os sites dos artistas ou para páginas onde é possível ouvir e baixar os trabalhos.

Divirta-se, e que venha 2014!

PASSO TORTO – “PASSO ELÉTRICO”
“Eles estão aí outra vez: Romulo Fróes, Rodrigo Campos, Marcelo Cabral (Criolo) e Kiko Dinucci (Metá-Metá). O segundo disco do supergrupo paulistano mantém a combinação invenção/tradição sempre sob as vistas e dedos de Carlos (Cacá) Lima, o mago técnico da YB – ouvir Anvil FX. Cavaquinhos e violões abriram caminho para guitarras cheias de efeitos. A novíssima tradução de São Paulo.” – Luiz Chagas

NANÁ VASCONCELOS – “4 ELEMENTOS”
“Mestre Vasconcelos, em plena forma, continua fazendo trilha sonora para o universo. A partir de Légua Tirana, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, que cantava quando criança enfeitada com rabeca e violoncelo, o músico ilustra com sons os elementos Terra, Fogo, Água e Ar – ‘Astronautas africanos coreografando uma dança nos anéis de Saturno’, explica.” – Luiz Chagas
DO AMOR – “PIRACEMA”
O segundo disco da banda carioca, concebido em uma fazenda no RJ, segue dialogando com estilos que vão do rock inglês ao carimbó. Gustavo Benjão, Marcelo Callado, Gabriel Bubu e Ricardo Dias Gomes mostram mais uma vez grande talento tanto como instrumentistas quanto como compositores. Leia aqui a matéria publicada na Brasileiros.
DJ TUDO E SUA GENTE DE TODO LUGAR – “PANCADA MOTOR – MANIFESTO DA FESTA”
“Mix Global – Misto de músico, produtor, pesquisador e peregrino, Alfredo Bello, o DJ Tudo, roda o mundo, Brasil principalmente, coletando cultura que devolve em um mix fascinante. Exemplo: Pancada Motor é ritmo alagoano, mas a produção foi dividida com Mad Professor e Dr. Da, ingleses do dub. Trabalho iniciado em 2009, entre seus dois primeiros CDs.” – Luiz Chagas
GUILHERME KASTRUP – “KASTRUPISMO”
Ctrl C + Ctrl V – Partindo de colagens de “células” musicais produzidas em seu estúdio, a Toca do Tatu, o baterista, percussionista e produtor carioca radicado em São Paulo obteve resultado de grande personalidade. Leia a matéria publicada na Brasileiros.

LUZ MARINA – “LUZ MARINA”
“O jeito suave de Luz Marina, sem “h”, se adequa perfeitamente ao som do piano Rhodes, pilotado por Du Moreira. Curumin e Bruno Buarque se revezam na bateria, e Marcelo Dworecki, na guitarra, enfeita os espaços. A mãe Alzira E., a prima Anelis Assumpção, o tio Maurício Pereira e o parceiro Daniel Viana cuidam para a viagem tranquila. O resultado aponta para uma direção segura. A irmã Iara, do Rio, aprovou. Gostoso.” – Luiz Chagas
NÁ OZZETTI – “EMBALAR”
“O grupo de Ná Ozzetti, formado pelo irmão Dante, Zé Alexandre, Mário Manga e Sérgio Reze, é o protagonista do novo disco da cantora, com as presenças de Kiko Dinucci, Mônica Salmaso e Juçara Marçal, entre outros. Além das parcerias habituais (Dante/Luiz Tatit), Ná agora dividiu canções com Luis de Camões, Alice Ruiz e Tulipa Ruiz (não são parentes). Sempre que Ná sai da casinha o mundo fica melhor.” – Luiz Chagas
MARCELO JENECI – “DE GRAÇA”
“Parafreseando Caetano, Jeneci sempre quis muito, mesmo parecendo ser modesto. Em seu aguardado segundo disco, trocou os arranjos de Artur Verocai pelos de Eumir Deodato e dividiu a produção entre Kassin e Adriano Cintra. Para melhor falar sobre um amor que acabou conquistou outro, Isabel Lenza, coautora de seis das canções, assinando as restantes – exceção para uma parceira com Luiz Tatit e outra com Arnaldo Antunes. E mandou ver com competência. Por que não, por que não?” – Luiz Chagas
MENO DEL PICCHIA – “MACACO SEM PELO”
O segundo disco solo do multi-instrumentista e compositor, que também é mestre em Antropologia, investiga as fronteiras entre humano e animal. O CD traz um belo time de músicos e participações de André Abujamra e Tatá Aeroplano, entre outros. Leia aqui a matéria publicada pela Brasileiros.
PÉRICLES CAVALCANTI – “FREVOX”
“Depois do tributo que ganhou de admiradoras mulheres, o carioca mais pernambucano-baiano-paulistano-inglês-globalizado deste mundo nos brinda com um disco cheio de novas canções. Elas continuam a seu lado, (Juliana Kehl, Tulipa, Lurdes da Luz, Tiê, Karina Buhr, Iara Rennó, Luisa Maita, Lucia Turnbull e a filha Nina, por exemplo), mas ele criou espaço para Cachorro Grande, Arrigo, Lanny e Romulo Fróes, entre outros, enquanto compôs, cantou, tocou e ainda recriou maravilhas. Ave Péricles!” – Luiz Chagas
TOM ZÉ – “TRIBUNAL DO FEICEBUQUI”
Após ser xingado nas redes sociais por ter participado de uma propaganda da Coca-Cola, Tom Zé transformou a polêmica em arte. Idealizado junto ao jornalista Marcus Preto, o EP conta com participações de músicos da nova geração: Trupe Chá de Boldo, Filarmônica de Pasárgada, O Terno, Tatá Aeroplano e Emicida. Leia aqui a matéria publicada na Brasileiros.

CACÁ MACHADO – ESLAVOSAMBA
“O pessoal finge que não vê, mas existe um novo samba escorrendo por Sampa. Vide Romulo Fróes, Rodrigo Campos e Kiko Dinucci, todos presentes no disco de estreia de Cacá Machado. O som é irreverente e global. O título, uma brincadeira com os afro-sambas, uma vez que São Paulo é rica em sobrenomes da área. No CD tem Kastrup, Amback, Nestrovski, Nikitin, Stolarski e Wisnik – este último abre o disco em dueto com Elza Soares.” – Luiz Chagas
ANDREIA DIAS – “PELOS TRÓPICOS”
“Na estrada: Andreia Dias, paulistana, cofundadora do Dona Zica e a única menina entre os garotos do Peter Pan, apresenta em seu terceiro CD o resultado de parcerias com músicos de dez capitais – Thalma de Freitas e Do Amor (Rio de Janeiro), Felipe Cordeiro e Léo Chermont (Belém), Zé Cafofinho (Recife), Cabruêra (João Pessoa), Talma&Gadelha (Natal), Vitoriano (Fortaleza), Criolina (São Luís), Eek (Maceió), Baiana System (Salvador) e The Baggios (Aracaju). Um disco rodado.” – Luiz Chagas
ARISMAR DO ESPÍRITO SANTO – “ROUPA NA CORDA”
“Comemorando 40 anos de carreira, Arismar do Espírito Santo, um dos maiores bateristas, baixistas, guitarristas, violonistas, pianistas, compositores, arranjadores e sabe-se lá o que mais, brasileiro, lança seu décimo CD, agora em parceria com a flautista Léa Freire e a revelação do bandolim Fábio Peron. Os filhos Thiago e Bia dão uma aparecida. Mar de notas”. – Luiz Chagas. Leia matéria publicada na Brasileiros.
ARNALDO ANTUNES – “DISCO”
Mais um belo CD de Arnaldo. A diversidade presente nas 15 faixas – que passam por diferentes ritmos, trazem parceiros de diferentes gerações e têm formações instrumentais variadas – não faz do álbum um trabalho sem unidade. Ao contrário, é a própria diversidade, conduzida pela poesia e a voz de Arnaldo e pela produção musical de Betão Aguiar e Gabriel Leite, que se torna a marca de Disco. Leia a matéria publicada pela Brasileiros.
BIA GOES – “BIA GOES”
O disco, que tem direção musical de Ricardo Valverde e a maioria dos arranjos de Sílvia Goes, passeia pela colcha de retalhos que é o forró, composta por chula, baião, xote, xaxado, arrasta-pé, para nomear alguns dos ritmos. Forró, mas fugindo do óbvio, calcado em pesquisa, voltado para o acréscimo – no bom sentido. Leia aqui a matéria publicada na Brasileiros.
BOCATO – “ESCULTURAS DE VENTO”
“No estúdio: O trombonista Itacyr Bocato Jr. é único. Quando explodiu na vanguarda paulista à frente da banda Metalurgia, já havia tocado com Elis Regina e Hermeto Pascoal. Nessas três décadas, lançou inúmeros discos solo, tocou com e para todo mundo, já foi até ator sob a direção da atriz portuguesa Maria de Medeiros. Apresentado à informática, passou, freneticamente, a escrever partituras agora executadas em um magnífico álbum duplo com direito a orquestra. Bocatão.” – Luiz Chagas
DUOFEL – “PULSANDO MPB”
A dupla, formada por Fernando Melo e Luiz Bueno, completa 35 anos de estrada. No novo disco, foca em repertório de clássicos da música popular brasileira – com escolhas certeiras -, mas mostra que suas influências vêm de vários pontos do mundo. Leia a matéria publicada na Brasileiros.

HOMENS CANTAM ÂNGELA RO RO – “COITADINHA BEM FEITO”
“Ângela Maria Diniz Gonçalves – o Ro Ro vem das risadas – estreou em 1979 com um disco de clássicos dela mesma. Para cantar suas músicas precisa ser macho. Daí, o curador Marcus Preto ter escolhido só meninos para interpretá-la dentro do projeto do DJ Zé Pedro. Lira, Leo Cavalcanti, Gui Amabis, Helio Flanders, Gustavo Galo, Dani Black, Otto, Tatá Aeroplano, Pélico, Thiago Pethit, Lucas Santana, o Passo Torto, Adriano Cintra, Rael, Juliano Gauche. Só hits.” – Luiz Chagas
BÁRBARA EUGÊNIA – “É O QUE TEMOS”
“A carioca acertou ao chamar Edgard Scandurra e Clayton Martin (Cidadão Instigado) para produzirem o disco. O apego por Serge Gainsbourg de um e o vintage jovem-guarda de outro permitiram que a garota radicada em São Paulo viajasse por esse mundo de amores perdidos. Coração, de Bárbara, é tão na medida que parece regravação. Caso de Porque Brigamos, versão de Neil Diamond eternizada por Diana. Tatá Aeroplano e Pélico participam, confirmando a paulistanidade.” – Luiz Chagas
EDY ROCK – “CONTRA NÓS NINGUÉM SERÁ”
Novo álbum do rapper, uma das vozes dos Racionais MC’s, é incisivo e preciso e reitera a importância do artista para o rap brasileiro. Um disco repleto de convidados e parcerias musicais: Emicida, Dexter, Marina de La Riva, Flora Matos, Rael da Rima e o veterano Ndee Naldinho. Leia aqui a matéria publicada na Brasileiros.
EMICIDA – “O GLORIOSO RETORNO DE QUEM NUNCA ESTEVE AQUI”
Mais maduro, com experiência na estrada e após período em que “parou para ler, estudar e ouvir música”, como diz, o rapper entrou em estúdio com condições e tempo para preparar um CD com produção cuidadosa e cheio de participações. Apesar de momentos mais leves, o álbum mostra sonoridade pesada na maior parte do tempo, dialogando com ritmos que vão do rock ao samba. A crítica social soa mais sutil do que em trabalhos anteriores, mas não desaparece. Emicida não abandonou a periferia.

GAROTAS SUECAS – “FERAS MÍTICAS”
Após a estreia que conquistou o público norte-americano e arrancou elogios da crítica especializada em 2010, a banda paulistana segue com sua pegada de rock brasileiro, funkeado e suingado, no segundo disco. Dessa vez a produção é do inglês Nick Graham-Smith, e o grupo conta com a participação mais que especial de Paulo Miklos. Leia aqui a matéria publicada na Brasileiros.
VANGUART – “MUITO MAIS QUE O AMOR”
Apesar de ser composta por jovens, a banda comandada por Hélio Flanders já tem mais de dez anos de estrada e alguns álbuns na carreira. Agora, lança um trabalho mais leve e romântico do que os anteriores, e soa mais pop do que nunca – o que não é ruim. O Vanguart sabe ser pop, e emplacou até música na trilha de novela da Globo.
HAMILTON DE HOLANDA – “MUNDO DE PIXINGUINHA”
O talentoso bandolinista visita a obra do mestre do chorinho, acompanhado de um time luxuoso. Entre os participantes, Wynton Marsalis, Stefano Bollani, Chucho Valdés, Omar Sosa e André Mehmari. “Me perguntam se o que eu faço é o novo choro. Novo choro? O choro é como a Monalisa. Você acha que ela precisa de retoques? O que eu faço, na verdade, é uma síntese dessas informações com influência da bossa, do jazz, do rock”, diz.
IARA RENNÓ – “IARA”
“Iara sempre foi considerada a ‘melhor’ de sua geração. Filha de Carlos Rennó e Alzira E., coliderou a banda DonaZica em seus dois discos e lançou outros dois solos. O primeiro baseado no Macunaíma, de Mário de Andrade, e o outro com marchinhas de carnaval. Este Iara é seu aguardado debut. Produzido por Moreno Veloso, o CD traz ela na guitarra, Ricardo Dias Gomes no pocket piano e Léo Monteiro na bateria. De arrepiar!” – Luiz Chagas
VITOR RAMIL – “FOI NO MÊS QUE VEM”
O décimo CD da carreira do compositor, cantor e violonista gaúcho destaca as milongas, gênero meio esquecido que encontrou em Vitor Ramil um criador extraordinariamente fecundo. Sutil, diferenciada, carregada de lirismo meio country/meio cult, a produção é festejada não só no pampa, mas também fora dele. Leia a matéria publicada na Brasileiros
CÉREBRO ELETRÔNICO – “VAMOS PRO QUARTO”
“Há uma década e três discos, Fernando Maranho e Tatá Aeroplano pilotam a banda. Enquanto o primeiro, guitarrista, investe em sonoridade criativa, no que é ajudado pelo tecladista e xará TRZ, o outro, band leader nato e compositor, mistura “Sérgios”, Gainsbourg e Sampaio. O baixista Renato Cortez, o baterista Gustavo Souza, no auge da forma percussiva, e os lendários Peri Pane e Flávio Guaraná completam o quadro que faz a banda continuar a parecer moderna no quarto.” – Luiz Chagas
BIXIGA 70 – “BIXIGA 70″
Sucessor da celebrada estreia da banda paulistana, o novo álbum homônimo atesta que a big band tem fôlego criativo de sobra. Às matrizes africanas de sempre (o afrobeat), o disco acrescenta sonoridades brasileiras como o carimbó paraense e o ponto de candomblé. Leia a matéria publicada na Brasileiros.

APANHADOR SÓ – “ANTES QUE TU CONTE OUTRA”
O talentoso quarteto de rock experimental, formado no Rio Grande do Sul, chega ao segundo CD de inéditas ainda mais firme e entrosado. O disco, vencedor do prêmio de melhor álbum de música popular pela Associação Paulista de Críticos de Arte, mostra a força dos jovens não só como instrumentistas, mas também como compositores e letristas.

Livro ‘1973’ historia discos essenciais que revitalizaram a MPB há 40 anos

Um guia jornalístico do mercado fonográfico brasileiro com resenhas de discos, críticas de shows e notícias sobre futuros lançamentos de CDs e DVDs. Do pop à MPB. Do rock ao funk. Do axé ao jazz. Passando por samba, choro, forró, soul, rap, blues, sertanejo e clássico. Atualizado diariamente. De domingo a domingo. É proibida a reprodução de qualquer texto ou foto do blog em qualquer veículo impresso ou digital – inclusive em redes sociais – sem prévia autorização do autor do blog.

Diversos discos fundamentais, que revitalizaram a MPB, vieram ao mundo fongráfico em 1973, ano dos primeiros álbuns de nomes como Fagner, Gonzaguinha (1945 – 1991), João Bosco, Luiz Melodia, Raul Seixas (1945 – 1989), Secos & Molhados, Sérgio Sampaio (1947 – 1994) e Simone. Todos esses álbuns – títulos de discoteca básica que completaram quatro décadas de vida neste ano de 2013 – são historiados e analisados no livro 1973 – O ano que reinventou a MPB. Organizado por Célio Albuquerque, o livro apresenta textos inéditos sobre cada disco, assinados por jornalistas e críticos musicais como Álvaro Costa e Silva, André Cananéa, Antonio Carlos Miguel, Ayrton Mugnaini Jr., Beto Feitosa, José Teles, Luiz Fernando Vianna, Marcelo Fróes, Pedro Só, Regina Zappa, Renato Vieira, Ricardo Schott, Silvio Essinger e Vagner Fernandes. Há também textos assinados por artistas como o compositor carioca Moacyr Luz e o músico, maestro e produtor musical pernambucano Rildo Hora. A seleção de discos inclui Araçá azul (Caetano Veloso), …Das barrancas do Rio Gavião (Elomar), Canto por um novo dia (Beth Carvalho), Elis (Elis Regina), João Bosco (João Bosco), Krig-ha, bandolo! (Raul Seixas), Luiz Gonzaga do Nascimento Jr. (Gonzaguinha), Matita Perê (Tom Jobim), Nelson Cavaquinho (Nelson Cavaquinho), Nervos de aço (Paulinho da Viola), Novos Baianos F.C. (Novos Baianos), Orgulho de um sambista (Jair Rodrigues), Pérola negra (Luiz Melodia), Quem é quem (João Donato), Simone (Simone) e Todos os olhos (Tom Zé), entre outros. O lançamento de 1973 – O ano que reinventou a MPB – livro que vai ser posto no mercado pela Sonoras, editora especializada em publicações sobre música – ficou para 23 de janeiro de 2014.

http://www.blognotasmusicais.com.br/2013/12/livro-1973-historia-discos-essenciais.html?spref=tw

Hermeto Pascoal e o Calendário do Som

Em Calendário do Som, o músico reúne as 366 composições que escreveu, no período de um ano, com o intuito de homenagear todos os aniversariantes do mundo
Com um show na companhia da Orquestra Popular de Câmara, o compositor e multiinstrumentista Hermeto Pascoal lança e autografa nesta sexta-feira, dia 1º , na sede do Itaú Cultural, em São Paulo, o livro Calendário do Som. A obra reúne 366 partituras de composições do músico alagoano, escritas durante o período de 23 de junho de 1996 a 22 de junho de 1997, além de uma breve biografia escrita pelo jornalista e pesquisador Sérgio Cabral.

“Eu queria, humildemente, homenagear através da música todos os aniversariantes do mundo”, explica Hermeto, que ao completar 60 anos decidiu passar um ano compondo uma música por dia. Além dessas partituras, o livro reproduz também anotações e desenhos do autor, relacionados com cada uma das composições. “Não tive essa intenção, mas o livro acabou virando um diário”, reconhece o músico alagoano, dizendo que pretende com essa obra desmistificar o ato da composição. “O que eu quis mostrar é que para compor não tem dificuldade. Comparo isso ao pintor que vai para uma praça e pinta um monte de quadros. Eu poderia ir para uma praça também e ficar fazendo uma música atrás da outra. Não é difícil. Só depende da pessoa.”

As anotações de Hermeto permitem até para o leitor que não domina a escrita musical entender um pouco do processo criativo desse gênio da música instrumental. “Comi um camarão com peixe e o estômago não aceitou, mas o som cura a dor, que virou música”, ele observa, indicando a relação íntima entre seu cotidiano e a música que escreve. Nomes de outros artistas e músicos admirados por Hermeto também são frequentes em suas notas. “Quando compus esta música pensei bastante no maravilhoso Dominguinhos, sanfoneiro, compositor e cantor; parecia que eu estava viajando com ele naquela estrada de Garanhuns indo para a Lagoa da Canoa”, revela o compositor.

Calendário do Som /Hermeto Pascoal -São Paulo:Editora SENAC São Paulo:Instituto Cultural Itaú, 2000
http://cliquemusic.uol.com.br/materias/ver/hermeto-pascoal-lanca-livro-de-partituras

Review: Ed Motta – AOR (2013)

Um álbum pra ser ouvido no toca-fitas, passeando de carro pela ensolarada U.S. Route 101 na Califórnia, tomando um keep cooler, e usando uma camisa florida como a do Magnum P.I.
Assim é o clima que Ed Motta pretende criar no ouvinte que apreciar seu mais recente disco, AOR (Dwitza Music / LAB 344). Um álbum totalmente focado na linguagem musical AOR Westcoast, que invadiu as rádios FM no final dos anos 70 e no começo dos 80.
Steely Dan, Pages, Doobie Brothers, Todd Rundgren, Ned Doheny, Eric Tagg, Airplay, Boz Scaggs, Christopher Cross e Chicago são alguns nomes importantes que permearam e nortearam a ótica de Ed para este novo trabalho, o primeiro a ser lançado por sua própria editora musical, Dwitza Music, e distribuído em parceria com a gravadora LAB 344.

Muitas surpresas advém deste novo disco. Uma delas é que o disco foi gravado em duas versões: uma quase toda em português (com letras de Rita Lee, Adriana Calcanhoto, Edna Lopes, Chico Amaral, Dante Spinetta e o próprio Ed Motta), e outro em inglês, com letras de Rob Gallagher. O disco em português foi lançado apenas no Brasil e a versão em inglês no resto do mundo.

Outra surpresa é o time ultra-qualificado de músicos convidados. Além da banda base, que consiste em Robinho Tavares no baixo, Sérgio Melo na bateria e Glauton Campello nos pianos e teclados, o disco tem o mestre David T. Walker na guitarra, além de Bluey do Incognito, Torcuato Mariano, Chico Pinheiro, Jota Moraes, Jessé Sadoc (arranjador de metais de todas as faixas), o sempre e fiel escudeiro de Ed, Paulinho Guitarra, e muito mais.

A veia soul e a paixão jazzística pelas harmonias que são características de Ed Motta encontraram abrigo perfeito nessa nova empreitada, visto que todas as músicas exalam um apuro técnico, uma qualidade de composíção/arranjo/gravação lapidada até seu estágio mais avançado, culminando num néctar musical sofisticado e ao mesmo tempo atraente, do ponto de vista popular. AOR é a pop music servida em taça dourada.

Faixa a faixa:

Flores da Vida Real – possui uma progressão inicial de acordes (mesma do refrão) que serve como um crachá do estilo Westcoast. O arranjo de metais de Jessé Sadoc evoca os melhores tempos d’As Segundas Intenções do Manual Prático. O solo de sax é feito pelo autor da letra, Chico Amaral, e o solo de guitarra é de Torcuato Mariano.

S.O.S. Amor – a parceria Ed Motta/Rita Lee rende um novo fruto. Com cara de single, a música une a beleza das canções de Rita & Roberto com a meticulosidade do Steely Dan. A bateria de Sergio Melo evoca o estilo funky laid back de Bernard Purdie. Solo de guitarra classudo do mestre Paulinho Guitarra. E o piano de Glauton Campello é a cereja do bolo.

Epísódio – Aqui a coisa fica ainda mais séria. No melhor estilo Jay Graydon, a intro dobrada de guitarras de Paulinho Guitarra flerta com o AOR mais Rock, enquanto que os violões de Vinícius Rosa fornecem a calma ao tema. O quarteto de metais (Aldivas Ayres, Sadoc, Marcelo Martins e Zé Canuto) semeia um riquíssimo arranjo por toda a canção. E a letra cifrada de Edna Lopes parece ser um recado para alguém.

Ondas Sonoras – O renomado e lendário guitarrista David T. Walker contribui com estilo e finesse para a rica música de Ed, cuja linda linha de baixo de Robinho remete diretamente a Boz Scaggs. Ed cria brilhantes vocais de apoio, além de tocar clavinet e percussão.

Marta – Além de ser a mais funk do disco (dá-lhe Robinho Tavares no groove do baixo), ‘Marta’ reflete a paixão de Ed por narrativas de HQ, seguindo a linha de ‘Nicole versus Cheng’, do disco Piquenique. Ambas são de autoria de sua esposa Edna Lopes. Além do tempero irresistível de Robinho, Glauton Campello dá show no piano acústico e no belo solo de Rhodes. E não podemos esquecer que Bluey do Incognito está pilotando a guitarra!

1978 – Outra com letra de Edna, esta foi a primeira música apresentada por Ed Motta ao grande público. Ed dobra a linha de baixo de Robinho com seu clavinet. O destaque é o flugelhorn e trompete de Jessé Sadoc (o interlúdio de metais é divino), o Rhodes de Campello e o absurdamente bonito solo de guitarra fusion de Chico Pinheiro.

Latido – Com seu arranjo de metais que remetem à fase Aystelum, é uma prova de amor de Ed para com a Argentina, o Chile e nuestros hermanos latinos que tanto o amam. Traz Dante Spineta (letra e narração), filho do falecido Spinetta, cuja música Ed tanto aprecia.
É a única do disco que quase cai fora do escaninho AOR, flertando com o spiritual jazz, o latin jazz e o funk. Mas claro, vestida e arranjada de acordo com a estética do disco. O requintado vibrafone de Jota Moraes e os pianos elétricos de Campello colaboram para o clima jazzístico. A síncopa do ritmo é envolvente, do começo ao fim do tema.

AOR – A vinheta que dá nome ao disco. Toda gravada e tocada por Ed, a letra é quase uma oração ao estilo Westcoast, além de servir para informar aos incautos como pronunciar corretamente o nome do estilo!

A Engrenagem – Desde já, minha favorita. O Rhodes de Ed é a tônica do tema, um AOR quase progressivo, e o solo de Vinícius Rosa na guitarra sedimenta o clima complexo. O magnífico solo de teclado de Rannieri Oliveira, cheio de modulações no tom, lembra o clima da música Aja, com a bateria de Sergio Melo quebrando tudo. Amazing!
E a letra, de autoria do próprio Ed Motta, parece trazer um recado implícito, um aviso, uma verdade.

Mais do que eu sei – Música que não consta do CD (só é vendida pelo iTunes) carrega influências do dito AOR Hard Rock. E ao mesmo tempo, traz reminiscências da balada do disco Piquenique, ‘Carência no Frio’, principalmente por causa dos violões. Mas as inéditas guitarras pesadas injetam frescor à música de Ed. E o belo solo de guitarra, todo harmonizado? Caberia tranquila em algum disco do Toto ou do Foreigner. A preferida de minha esposa.

Resumo: Discaço! A única crítica negativa a se fazer é que o álbum é muito curto, pois música deste nível é desejável de se ouvir muito, e sempre. Mas não tem como não dar 5 estrelas. Obrigado, Ed, por nos permitir ouvir sua fabulosa música.

Marcelo Donati, 1 de maio de 2013.

http://marcelodonati.blogspot.com.br/2013/05/ed-motta-aor-2013-um-review.html

Entrevista: Ed Motta traz seu AOR para Amsterdam

http://www.bailandesa.nl/blog/6885/entrevista-ed-motta/

Com ingressos esgotados, Ed Motta apresentou em Amsterdam o seu novo disco AOR. Conversamos no North Sea Jazz Club, logo após a passagem do som, sobre sua música, influências, manias e sobre o novo trabalho.

Esse foi um dos shows de músicos brasileiros onde mais vi holandeses na plateia. Isso explica o alcance da musicalidade de Ed Motta. A sua genialidade musical coexiste entre o universo das suas referências internacionais e a inevitável influência do seu país, se expressando num mix de soul, funk, jazz que atravessa fronteiras.

Nesse projeto, Motta toma certa distância do funk, e traz um som polido, com jeito de pop sofisticado e mais adulto – o Adult Oriented Rock ou Album Oriented Rock, para íntimos, AOR. O resultado é um disco em duas versões, uma em inglês e outra em português, com refinamento e leveza singulares.

Como você define AOR?
É um tipo de música que eu escutei desde sempre, misturado com outras descobertas. O gênero teve o seu ápice em 1975 até 1982, 83, mas esse tipo de música é vigente até hoje. É uma música que toca em rádio adulta. Um exemplo clássico é Thriller do Michael Jackson.

A sigla AOR não se restringe a rock, certo?
A sigla AOR é absolutamente abrangente. Nos EUA, eles usam outra sigla MOR, Middle of the Road, que é ainda mais abrangente. Aí, podemos incluir Carpenters, Beatles, Air Supply. E ainda existe um desdobramento West Coast AOR, que também não é exatamente rock. Estamos falando de músicos como Christopher Cross e Steely Dan.

Steely Dan é uma grande referência pra você?
A influência de Steely Dan na minha carreira não é só na parte musical, mas também na parte sônica. A preocupação sonora com o disco. O AOR é um disco muito artesanal. Foi gravado em casa; as bases num estúdio e todas as coberturas, outros instrumentos, voz e a mixagem toda em minha casa. Durou quase um ano, foi um disco bem trabalhoso.

Você é tão perfeccionista como o Donald Fagen?
Ah, sim doença total – risos.

Por que duas versões: uma em inglês e outra em português?
A língua é um ponto de dúvida sempre presente. No fundo, acho que a língua franca da minha música é o inglês, que tem uma sonoridade mais próxima das referências tive. Escutei muito mais esses discos do que discos em português. Ao mesmo tempo, o português faz parte do meu dia-a-dia. É a forma que eu sonho e traz o que tenho mais dentro de mim. O português mexe com o outro lado da emoção, que não é só música. Tem o peso de ser a língua que eu nasci falando. Gravo em inglês não por questões mercadológicas. Realmente acho que a minha música soa melhor, mas ao mesmo tempo gosto de cantar em português porque sempre levo um pouco da sonoridade das minhas referências. O legal é que as duas versões se espalham, mas continuam se encontrando por aí.

Ed Motta conta convidados mais do que especiais nas duas versões. Na versão em inglês, a lenda viva do fusion, David T Walker, Bluey do Incognito, Chico Pinheiro, Chico Amaral e grandes guitarristas como Torquato Mariano e Paulinho Guitarra. Também parcerias com letristas: Rob Gallagher, na versão em inglês e na versão em português, Rita Lee, Adriana Calcanhoto e a sua ex-mulher Edna Lopes.

Como sua música se diferencia, vai além das suas referências ?
A minha música comunga com duas coisas: um lado introspectivo de fazer e um lado totalmente extrovertido dos cantores do soul. É uma música de coração. Ela é toda pensadinha, mas não fica só no cerebral.

Carrego um cacoete natural de outras pessoas que já faziam isso no Brasil: Cassiano, meu tio Tim Maia, Sandra Sá, Lady Zu, Banda Black Rio e tantos outros. Todos eles têm um pé muito grande no que se fez de forma internacional e globalizada do que se entende de jazz, funk, soul, AOR. Acrescento um olhar sulamericano, brasileiro. A música da argentina me interessa muito. O Spinetta tem muita influência enorme na minha musica.

Você fala que esse é um disco muito artesanal. Como fica a transição pro palco?
Nós temos um tempo meio jazzistico de trabalho, vamos acertando as arestas enquanto tocamos. Também os tempos são outros. No começo da minha carreira, haviam os grandes selos. O ritmo e o orçamento eram outros. Havia tempo e orçamento para ensaiar Hoje em dia os shows não podem parar. E aí no meio de um show, você já começa a ensaiar o outro. Vamos passando as músicas durante os ensaios, até chegar “no ponto”.A desejada perfeição nunca chega, mas chega num ponto razoável.

Você é famoso por sua incrível coleção de LPs e por outras paixões como o vinho. Você vai a fundo nas coisas que gosta?
Tenho poucas manias, mas sempre tentei estudar com respeito e obsessão gigante. É natural, uma necessidade de vida, de estar sempre conhecendo uma coisa nova; é meio que uma gasolina e no final, também me engravida de música.

O que você tem ouvido? O que ainda lhe surpreende em termos de música?
O Lucas Arruda, do Espírito Santo lançou um disco agora na França. Ele é genial! Gosto também da Orquestra Rumpilezz, lá da Bahia. Letieres Leite é um mestre. Tenho vontade de fazer um projeto com eles. A Rumpilezz gravou uma música minha no primeiro disco e participei de vários shows. Aquela formação é absolutamente brilhante.

Quais são os músicos e bandas holandesas que você ouve?
Ah, são muitos. Desde as coisas de jazz como a cantora Rita Reys, o saxofonista Tony Vos e o pianista que era do Focus, o Thijs Van Lier e as bandas todas de rock Earth and Fire, Shocking Blue, Reality, Massada e tantos outros. Tem um disco mítico do AOR que foi feito aqui na Holanda nos 70. São os dois primeiros discos solo do Erik Tagg, lançado em 1975, Rendez-Vous. Só saiu na Holanda e foi feito aqui; um disco brilhante, maravilhoso, um verdadeiro clássico do AOR.

Após Amsterdam,Ed Motta seguiu com sua turnê internacional para Londres, Tóquio e México.

Ed Motta leva à Europa novo disco, inspirado em FM dos anos 1970

Em entrevista à DW Brasil, cantor e compositor carioca fala sobre nova fase musical: sem preocupação com pioneirismo. Motta se apresenta no Festival BeLaSound, em Berlim. Novo disco será lançado também em vinil.
Fazia muito tempo que Ed Motta, dono de uma das vozes mais potentes e versáteis do Brasil, não se apresentava no Velho Continente, e não apenas por conta da agenda lotada no Brasil. “Era por pânico de voo de longa distância, mesmo. Foram quase oito anos sem vir à Europa por causa desse medo. Já estou melhor agora, consigo entrar no avião, mas não quero dizer que estou curado, porque o pânico pode voltar”, diz Motta, que lançou há pouco o envolvente AOR, décimo-terceiro título de uma discografia densa, alternando hits que estouraram nas pistas de dança – como Manuel, Vamos Dançar e Já – com fases de inquietação estética e pouco apelo comercial.

A passagem pela Alemanha vai ter também alguns destaques do artista na capital. Um repertório que tem tudo para agradar aos fãs da discoteca norte-americana dos anos 1970 e 1980. Como bem disse Ed Motta em entrevista para a DW Brasil, uma música de alcance planetário, muitas vezes subestimada pelos críticos mais sisudos pelo enorme sucesso que teve quando nomes como Chicago, Doobie Brothers e Barry White sacudiam as rádios.

O título do disco, AOR, é um termo criado no meio fonográfico para designar a chamada música das rádios FM, abreviação em inglês de Adult-Oriented-Rock. O álbum foi lançado em duas versões: uma com as canções em português, com letras escritas por Rita Lee, Adriana Calcanhotto e Chico Amaral, e a outra em inglês.

DW Brasil: Seu novo disco reitera a sua opção por investir na sofisticação harmônica e em arranjos apurados. A sua sonoridade hoje seduz mais pela sutileza do que pelos beats irresistíveis de outrora. O Ed Motta quarentão ficou mais cerebral?

Ed Motta: (Risos) Esse disco é o reflexo de uma série de coisas que venho experimentando em música, digamos, nos últimos vinte anos. Vem desde a primeira trilha que fiz para o cinema, quando eu tinha dezoito anos, para o filme Leonora Down (1991). A partir daí, comecei a me aprofundar nos estudos da música. Gravei dois álbuns instrumentais, o Dwitza (2002) e o Aystelum (2005), fiz o musical 7 [com Cláudio Botelho e Charles Moeller], espetáculo que ficou em cartaz quase um ano no Rio de Janeiro e em São Paulo. Venho tentando o meu melhor dentro do que a vida vai me ensinando. Espero que quando eu tiver 60 anos, faça um disco melhor, que eu saiba mais música e tenha mais sabedoria de vida.
Por que você considera AOR um de seus trabalhos mais intrincados?

O Dwitza e o Aystelum são avantgarde, já o AOR é uma ode a uma música que eu sempre ouvi desde criança e que sempre me influenciou. Eu não procuro ser original com esse novo disco, nem pioneiro. O que quero é evidenciar algo que sempre existiu nas nossas vidas, esse tipo de música que toca em todas as rádios “adultas”, em todas as partes do mundo, como Christopher Cross cantando Sailing. Existe um tipo de olhar para essa música como se fosse algo descartável, mas não é. Há uma forma de se servir essa música com talheres de prata. Minha ideia foi colocar essa estética dentro desse editorial “jazzístico”, de alta precisão de estúdio, de arranjos etc.

Na versão em inglês do AOR, quase todas as letras foram feitas por Rob Gallagher. Como surgiu a parceria entre vocês?

Surgiu no meu disco Chapter 9, de 2008. O Rob Gallagher era da banda Galliano, uma das pioneiras do chamado acid-jazz, como a Jamiroquai. Aliás eu tenho vontade um dia de lançar as versões de Rob para as nossas músicas. Ele é um supercantor, que tem um timbre de voz como o de Scott Walker, meio David Bowie. Um dia eu quero lançar um The Rob Views of Mottas Songs.

O contato entre vocês durante a composição se deu pela internet?

Tanto com o Rob como com todos os parceiros no Brasil, foi tudo pela internet. Antes de haver internet, era via fax. Nunca me encontrei com ninguém para escrever música junto.

Nem na época da banda Conexão Japeri, no começo de sua carreira?

Nem naquele tempo. Eu sempre fui louco por estúdio, sou muito caseiro, um hermitão que vive ouvindo disco, lendo e vendo filmes, coisa de nerd mesmo. E eu me lembro que o primeiro dinheirinho que ganhei fazendo show, no Robin Hood Pub que havia no Alto da Boa Vista, no Rio, deu para comprar um gravador de seis canais pelo jornal Balcão (semanário de classificados). Aquilo foi uma revolução na minha vida. Isso em 1986, dois anos antes de sair nosso primeiro disco. Eu tinha 13, 14 anos.

Esse gravador me fez inclusive ficar mais gordo – eu sempre tive tendência à obesidade, porque ficava muito em casa, fazendo minhas fitas-demo. Esse foi um dos motivos para a Conexão Japeri acabar. Ela só durou um disco, porque eu já chegava com tudo absolutamente pronto. Depois eu percebi que não dava para ficar numa banda estando cada vez mais ligado aos meus trabalhos no estúdio. Esse meu disco novo foi todo gravado no meu estúdio profissional que tenho em casa. Um estúdio que o tempo me deu, graças a Deus.

O fã brasileiro encontra também o CD na versão em inglês para comprar nas lojas do Brasil?

Inicialmente só através de importação, mas estamos pensando em fazer uma edição deluxe no final do ano, com as duas versões do AOR. Isso seria um sonho.

Esse novo álbum sairá também em vinil?

Na Alemanha vai sair em vinil, sim, fabricado aqui mesmo. Já o vinil brasileiro foi fabricado na República Tcheca e é branco. Só lá que se faz vinil branco com qualidade. O vinil brasileiro vai virar raridade, pois a gente só mandou fazer 500 cópias. Assim que eu chegar de volta ao Brasil, vou divulgá-lo. A cada momento você tem que ter um assunto novo para o mercado que, mundialmente, está cada vez mais difícil para quem faz música de verdade. Seria injusto dizer que esse é um problema do Brasil. Viajo o mundo inteiro com a minha música e vejo o quanto se consome em péssima música.

O que você achou da coletânea que a gravadora norte-americana Luaka Bop lançou do teu tio Tim Maia nos Estados Unidos?

A única coisa triste nesse disco foi que omitiram o crédito de Paulinho Guitarra, que é autor de duas músicas do disco. Isso é um crime contra o direito autoral. É uma coletânea criminosa.

http://www.dw.de/ed-motta-leva-%C3%A0-europa-novo-disco-inspirado-em-fm-dos-anos-1970/a-16875773